O Jovem Cartomante e o Véu do Destino


🃏 O Jovem Cartomante e o Véu do Destino

Havia um jovem chamado Cael, introspectivo e curioso, que encontrara nas cartas de tarot um espelho para os mistérios do universo. Desde cedo, mergulhara nos arcanos maiores e menores, fascinado pela dança simbólica entre destino e livre arbítrio. Para ele, cada jogada era uma conversa com o invisível.

Certa noite, movido por uma inquietação inexplicável, Cael fez uma tiragem sem permissão. O consulente involuntário era o amigo de seu pai, um homem alegre e generoso chamado Augusto. As cartas revelaram um presságio sombrio: A Torre, A Morte, e O Pendurado. Cael sentiu um calafrio. Algo grave se aproximava.

Tomado pela angústia, Cael enviou uma mensagem ao filho de Augusto, seu amigo íntimo, Ícaro. “As cartas mostraram perigo de morte. Peça ao seu pai que tenha cuidado nos próximos dias.” Ícaro, embora cético, avisou Augusto, que riu da ideia e seguiu sua rotina.

Dias depois, Augusto sofreu um grave acidente de carro. O impacto foi brutal. Ele sobreviveu, mas caiu em um coma profundo, preso entre mundos, sem resposta, sem despedida.

A família mergulhou em dor. Ícaro, devastado, procurou Cael e implorou:  
— Você viu isso antes de acontecer. Faça algo. Use sua magia. Ajude meu pai a partir. Ele está sofrendo, nós estamos sofrendo.

Cael abaixou os olhos, sentindo o peso da culpa e da impotência.  
— Ícaro, meu dom é ver, não agir. Não posso interferir no ciclo da vida. A morte não é minha para conceder. Isso ultrapassa tudo o que é ético e sagrado.

Ícaro se afastou, magoado. O tempo passou. Augusto permaneceu em coma por anos, até que, enfim, partiu silenciosamente. Mas a amizade entre Cael e Ícaro nunca se recuperou. O silêncio entre eles se tornou mais profundo que qualquer carta virada.

Cael aprendeu, da forma mais dura, que o tarot não é um brinquedo, nem uma arma. É um portal que exige respeito. E acima de tudo, que o livre arbítrio é uma lei inviolável — mesmo quando o coração clama por intervenção.

Moral do Conto
Jamais ultrapasse os limites do consentimento. O dom de ver não é o direito de mudar. Interferir no destino alheio, mesmo com boas intenções, pode trazer consequências irreversíveis. O respeito ao livre arbítrio é a base de toda prática espiritual verdadeira.

FIM 

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