🌀 O Controle é uma Ilusão
Leonardo sempre foi metódico. Acordava às 6h30, tomava café com duas torradas e um copo de suco de laranja, lia o jornal por exatos 15 minutos e saía para o trabalho às 7h05. Sua agenda era impecável, seus planos traçados com precisão cirúrgica. Para ele, a vida era uma equação: se todas as variáveis fossem controladas, o resultado seria previsível.
Até que, numa terça-feira comum, o mundo resolveu não seguir o roteiro.
O telefone tocou às 10h17. Era do hospital. Seu pai, saudável até então, havia sofrido um AVC. Leonardo largou tudo e correu para lá, mas já era tarde. A notícia veio como um golpe seco, sem aviso, sem lógica. O homem que lhe ensinara a importância do controle havia partido sem sequer se despedir.
Nos dias seguintes, Leonardo tentou retomar sua rotina. Mas algo havia mudado. O despertador tocava, mas ele não se levantava. O jornal ficava intocado. O suco de laranja azedava na geladeira. A engrenagem perfeita da sua vida havia emperrado.
Começou a reparar nas pequenas coisas: o trânsito que ignorava seus horários, a chuva que caía sem pedir licença, as pessoas que mudavam de humor sem explicação. Tudo parecia conspirar contra sua obsessão por ordem.
Foi então que conheceu Clara, uma artista que pintava sem esboço, vivia sem agenda e sorria como se o mundo fosse um improviso constante. Ela o levou a uma exposição chamada "Caos e Beleza", onde cada obra era uma celebração do inesperado. Leonardo, desconcertado, perguntou:
— Como você vive sem planejar nada?
Ela respondeu com um sorriso leve:
— Porque o controle é uma ilusão. A vida não é uma equação, é uma dança. E às vezes, os melhores passos são os que a gente não ensaiou.
A frase ecoou em sua mente por semanas. Aos poucos, Leonardo começou a permitir o improviso. Cancelou reuniões para ver o pôr do sol, trocou o suco de laranja por café com Clara, e até deixou o despertador desligado por uma semana inteira.
Não que tivesse abandonado completamente a ordem. Mas agora, ele sabia que o controle era como areia entre os dedos: quanto mais se tenta segurar, mais escapa.
E pela primeira vez, ele se sentiu livre.
FIM
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