Aqui está um conto que mergulha nesse fenômeno moderno — onde o desejo de escapar do peso das expectativas se transforma em uma indústria secreta de recomeços:
💨 Evaporados
Ninguém sabia ao certo quando começou. Talvez tenha sido depois da terceira crise global, ou quando as redes sociais passaram a exigir mais do que apenas presença — exigiam perfeição. Ou pessoas que sofriam abusos domésticos, estavam infelizes de com o sucesso de ter o emprego dos sonhos dos outros e ter que atender as espectativas da família tendo que manter o papel de "exemplo" , ou o fardo de simplesmente ser forçado a viver o sonhos dos outros, menos o seu.O fato é que, em algum ponto, a pressão se tornou insuportável. E foi aí que surgiram os Evaporadores.
Eles não tinham sede física, nem site. Apenas um símbolo: um círculo cortado por uma linha diagonal, como um botão de desligar. Quem quisesse desaparecer, precisava encontrar esse símbolo — em um banheiro de rodoviária, em um livro esquecido numa biblioteca, ou rabiscado na lateral de um poste. Era o primeiro teste: só quem realmente precisava sumir o encontrava.
Aline era uma dessas pessoas. Aos 34 anos, tinha uma carreira que todos invejavam, um apartamento com vista para o parque, e uma família que a chamava de “exemplo”. Mas por dentro, ela era só ruído. A cada elogio, sentia o peso de manter a fachada. A cada conquista, o medo de fracassar. Até que, numa noite qualquer, viu o símbolo gravado na tampa de um banco de praça. E decidiu seguir.
O processo era simples e brutal. Você entregava tudo: nome, histórico, digitais, até memórias digitais. Em troca, recebia uma nova identidade, um novo rosto — às vezes literalmente — e um destino aleatório. Podia acordar como jardineiro em uma vila costeira ou como bibliotecária em uma cidade esquecida. O contrato era claro: sem volta, sem rastros, sem passado.
Aline se tornou “Clara”, uma apicultora em uma vila no interior da Croácia. Aprendeu a cuidar das abelhas, a ouvir o silêncio, a viver sem ser observada. No começo, sentia culpa. Depois, alívio. E por fim, liberdade.
Mas nem todos evaporavam por desespero. Alguns o faziam por curiosidade, outros por rebeldia. Havia quem evaporasse várias vezes, trocando de vida como quem troca de roupa. E havia os que tentavam voltar — mas descobriam que o mundo que deixaram já não os reconhecia.
O fenômeno cresceu. Governos negavam, empresas fingiam não saber, mas todos sabiam: os Evaporadores estavam por toda parte. E talvez, no fundo, todos desejassem um pouco evaporar também.
FIM
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