Aqui está um conto que mistura mitologia, drama e reflexão sobre a natureza humana:
🌿 A Última Filha da Brisa — Conto da Personificação da Paz
Num mundo onde o céu vivia coberto de fumaça e o solo se alimentava do sangue dos homens, existia um reino esquecido chamado Aeloria, onde a guerra não era apenas prática — era religião. Os irmãos de sangue, nascidos sob o mesmo teto, treinavam desde a infância para se destruírem mutuamente, pois sem imperadores, sem reis, cada homem era seu próprio trono e cada coração, uma espada.
Aeloria não conhecia paz. Não por falta de desejo, mas por ausência de memória. A paz era um mito antigo, uma lenda contada por loucos e poetas. Até que, numa noite em que a lua se recusou a nascer, surgiu uma figura envolta em véus de luz e silêncio: Eirenna, a personificação da paz.
Ela não veio com exércitos, nem com decretos. Veio com uma harpa feita de vento e uma voz que não falava — apenas tocava o coração. Eirenna caminhava entre os campos de batalha, e onde seus pés tocavam, a grama voltava a crescer. Os irmãos que se enfrentavam paravam, não por medo, mas por confusão. Pela primeira vez, sentiam algo que não sabiam nomear.
Mas a paz, quando não compreendida, é vista como ameaça.
Os irmãos, sem imperadores para guiá-los, começaram a desconfiar. Diziam que Eirenna era uma bruxa enviada por reinos distantes para enfraquecer suas lâminas. E assim, os irmãos se tornaram carrascos de si mesmos — não por ordem de reis, mas por medo do silêncio que ela trazia.
Eirenna, ao ver que sua presença causava mais divisão do que união, decidiu partir. Mas antes, deixou uma semente em cada coração que a ouviu. Uma semente que não podia ser arrancada, apenas ignorada. E com o tempo, mesmo nos dias mais sangrentos, alguns guerreiros começavam a hesitar. A espada tremia. O ódio vacilava. E a semente crescia.
A paz não venceu a guerra. Mas também não foi derrotada. Ela se tornou memória — e memória, quando cultivada, vira esperança.
FIM
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