Sozinho sim, alienado nunca

​A poeira amarelada e sufocante ainda flutuava no ar quando o último estrondo silenciou a Terra. O céu, antes azul, havia se rasgado em um vermelho-sangue denso, marcando o inevitável: o fim do mundo havia chegado.

​Edy McFins ajeitou a mochila surrada nas costas e olhou ao redor. Ele estava no topo de uma colina seca, cercado pelo silêncio sepulcral de um mundo que ruiu sob o peso de suas próprias ilusões. Edy se lembrava perfeitamente do dia em que tudo mudou em sua vida, anos antes do apocalipse físico acontecer.

​O cenário era a iluminação suave do templo que frequentara por mais de uma década. No púlpito, o líder religioso, de terno impecável e voz estrondosa, proferira as palavras que ecoariam para sempre na mente de Edy:

​— É melhor errarmos juntos com a igreja e irmos em unidade para o inferno, do que ir para o paraíso sozinho!

​O amém coral que se seguiu fez o chão tremer. Mas, para Edy, aquele foi o momento em que o encanto se quebrou. Ele olhou para os lados e viu dezenas de rostos conhecidos assentindo cegamente, anestesiados pelo medo de estarem sós. Naquela mesma noite, Edy caminhou até a saída. Ele escolheu acordar.

​A partir dali, virou a ovelha negra. O rebelde, o desgarrado, o herege. Amigos de anos viraram o rosto na rua; familiares cochichavam sobre sua "alma perdida e orgulhosa". Diziam que a solidão o destruiria. Edy aprendeu a andar sozinho, buscando a verdade longe das amarras e da alienação, preferindo o deserto da própria consciência ao conforto de uma ilusão coletiva.

​E então, os fins dos tempos vieram.

​Enquanto a fenda final se abria sob a Terra, uma luz serena e indescritível envolveu Edy. Ele sentiu o peso do corpo desaparecer, substituído por uma paz que nunca experimentara antes. Ao olhar para cima, viu portas douradas e relvados de um azul-celeste acolhedor — a salvação o recebia, não por ter seguido uma multidão, mas por ter guardado sua própria integridade.

​Ao olhar para baixo, pela última vez, Edy viu o destino do grupo que deixara para trás. A massa de fiéis, que preferira a segurança de um erro coletivo, afundava junta em um abismo de sombras e chamas eternas — o destino ao qual a doutrina do líder os condenara.

​Seguindo em direção à luz eterna, Edy sorriu em silêncio. Ele descobrira, no fim das contas, a maior das verdades: a salvação nunca foi uma caminhada em bando, mas a coragem da liberdade.

Fim 

Por Alex Sandro 

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