A mentira voa, a verdade engatinha
Era uma vez, na vasta e verdejante Floresta dos Ribeiros, onde todos os bichos se reuniam para competições e festas, duas figuras muito conhecidas: Lebre, rápida, esperta e amada pela multidão, e Tartaruga, devagar, discreta, e muitas vezes ignorada, pois nunca conseguia chegar primeiro em nada — ou pelo menos, era o que todos pensavam.
Todos lembravam da famosa corrida de anos atrás, onde a Lebre, confiante demais e cheia de si, parou para dormir no caminho, e a Tartaruga, passo a passo, sem parar, chegou ao fim e venceu. Na época, a história foi contada como uma lição: “devagar e sempre se chega mais longe”. Mas o tempo passou, e na floresta, os valores mudaram. Agora, o que importava era brilhar, aparecer, vencer rápido e ganhar glória. Quem ia devagar era visto como fraco, atrasado, alguém que não servia para nada.
Um dia, o Grande Conselho da Floresta anunciou uma nova competição: quem conseguisse levar até o topo da Colina do Sol a maior quantidade de “frutos de reconhecimento” — frutos raros que cresciam só nos terrenos mais altos — seria coroado o Herói da Floresta, com festa, canções e honrarias para sempre.
Lebre, claro, foi a primeira a se inscrever. Saltitante e sorridente, gritou para todos verem:
— Eu vou vencer! Minhas patas são como o vento, minha agilidade é de ninguém! Vocês vão ver: eu chegarei lá antes que o sol suba ao meio do céu!
Todos bateram palmas, elogiaram, disseram que ela era a única capaz de tal feito. Ninguém duvidava.
Depois, bem devagar, arrastando seu casco pesado, apareceu Tartaruga, e disse com sua voz calma:
— Eu também quero participar.
Houve risadas. Alguns bichos cochicharam: “Ela? Como é que ela vai chegar lá? Vai demorar dias, semanas… ninguém vai esperar por ela”. Muitos olharam com desprezo, como se só de querer tentar, ela já estivesse fazendo algo errado. Mas as regras permitiam qualquer um, e ela foi inscrita, num canto, quase esquecida.
No dia da prova, o sol mal tinha nascido, e a multidão já estava lá, vibrante. Lebre se preparou, com fitas coloridas, conversando com todos, cheia de confiança. Tartaruga ficou quieta, olhando o caminho, pensando só em cada passo que daria.
Ao sinal de largada, Lebre disparou como uma flecha. Voava entre as árvores, pulava pedras, desviava de galhos — era um espetáculo! Todos gritavam seu nome, encantados com sua velocidade. Em pouco tempo, já tinha sumido de vista, muito à frente de qualquer um.
Mas ao chegar numa clareira, Lebre parou. Lá, havia um pé cheio de frutos de reconhecimento, grandes, brilhantes, perfeitos. Mas… não eram frutos da Colina do Sol. Eram frutos de outro terreno, parecidos, mas não tinham o mesmo valor. Então, uma ideia passou pela sua cabeça: “ninguém viu ainda. Se eu pegar estes, disser que peguei lá de cima, todos vão me aplaudir, eu ganho tudo, e ninguém vai saber da diferença. É só uma palavra… e eu já estou na frente, ninguém vai conferir”.
E foi assim: encheu os braços, fez um monte alto, e voltou correndo para a multidão, gritando bem alto, para todos ouvirem:
— Olhem! Eu já voltei! Trouxe tudo isto do topo da Colina do Sol! Vejam que frutos grandes e lindos! Eu sou a vencedora!
Foi uma festa só. Todos bateram palmas, jogaram flores, cantaram seu nome. Os líderes da floresta já preparavam a coroa. Ninguém perguntou como tinha sido tão rápido, ninguém quis saber detalhes. A glória estava ali, bonita, brilhante, e todos queriam estar perto de quem tinha “vencido”.
Enquanto isso, bem longe, Tartaruga seguia seu caminho. Passo após passo, subia ladeiras, descia vales, enfrentava o sol quente e o chão áspero. Muitas vezes, bichos que passavam por ela diziam:
— Para que você continua? A Lebre já ganhou! Você está perdendo tempo, ninguém vai lembrar de você, ninguém vai te dar nada por chegar lá depois!
Ela só respondia com calma:
— Eu não estou aqui pela festa. Estou aqui para ir até onde eu disse que iria, e trazer o que é verdadeiro.
Horas depois, quando o sol já começava a descer, e a festa pela vitória da Lebre já estava no auge, apareceu Tartaruga. Cansada, com o casco cheio de poeira, carregava poucos frutos, pequenos, mas que tinham um brilho diferente — um brilho de quem foi até o fim, de quem fez o caminho inteiro.
Ao vê-la chegar, houve um silêncio estranho. Depois, começaram as falas:
— Olha ela aí, que demora!
— Veja que coisa feia, esses frutos são tão pequenos…
— Você acha que pode competir com a nossa heróina? Que vergonha, aparecer agora, só para chamar atenção!
Ninguém quis ouvir o que ela tinha para dizer. Ninguém quis saber que os frutos da Lebre eram de outro lugar, que a história contada por ela era uma mentira bonita, que voou rápido e encantou a todos. A verdade que Tartaruga trazia era dura, devagar, difícil de aceitar — e por isso, foi empurrada para o canto, esquecida, tratada como se não valesse nada.
Lebre foi coroada, recebeu presentes, foi chamada de exemplo. Mas com o tempo, a mentira começou a pesar. Os frutos que ela tinha trazido murcharam rápido, perderam o brilho, e todos perceberam que não tinham o gosto nem a força dos frutos verdadeiros. Mas já era tarde: ninguém queria admitir que tinha acreditado numa mentira, ninguém queria tirar a glória de quem todos tinham aplaudido.
Tartaruga continuou vivendo do seu jeito: devagar, verdadeira, muitas vezes sozinha e desprezada. Mas todos os anos, quando alguém queria saber como era realmente o caminho até a Colina do Sol, quem sabia a resposta era ela. Porque ela tinha ido, tinha visto, tinha vivido cada passo.
E assim ficou a lição, que ninguém gosta de ouvir, mas que sempre esteve ali:
A mentira voa, leve e bonita, chega primeiro, ganha aplausos e glórias fáceis. Mas a verdade… a verdade engatinha, sofre, demora, é deixada de lado. Só que ela é a única que fica, a única que realmente serve, quando tudo o que brilhava por fora acaba em nada.
Na floresta, e fora dela, muita gente ainda corre como a Lebre, querendo vencer a qualquer preço. E poucos têm coragem de ser como a Tartaruga: de ir devagar, de dizer o que é certo, mesmo que ninguém esteja olhando, mesmo que ninguém aplauda. Porque ser verdadeiro nunca foi caminho de glória rápida — mas é o único caminho que leva a um lugar que vale a pena estar.
Autor: M. Alex Sandro Alves
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