O ponteiro do velocímetro oscilava na casa dos cento e vinte, acompanhando o ritmo das vozes que se sobrepunham no espaço confinado do carro. De nada adiantara estacionar minutos atrás, no acostamento poeirado; a pausa só servira para acumular mais munição. De volta à pista, a velocidade virara o espelho do caos interno.
— Você nunca esteve presente, Eduardo! Nem quando olhava nos meus olhos! — Manuela gritava, gesticulando com o teto solar aberto deixando entrar o uivo do vento.
— Eu passei os últimos cinco anos tentando sustentar as suas expectativas irrealistas! — Eduardo esmurrou o volante, sem desacelerar. — Acabou, entenda de uma vez! Não tem volta. O divórcio é a única coisa em que concordamos!
A DR definitiva escalava sem freios. O casamento morrera muito antes daquele motor esquentar; era um cadáver arrastado por orgulho. Na fúria cega de lançar a última palavra ofensiva, nenhum dos dois prestou atenção na margem da estrada. Uma placa de sinalização amarelada, retorcida e caída no mato, trazia o aviso que ignoraram: Pista sem retorno.
Eduardo virou a cabeça por dois segundos para rebater uma provocação. Não viu a curva fechada. Não viu o fim do asfalto.
O pneu dianteiro comeu a ribanceira. O baque surdo da suspensão quebrando foi seguido por uma sensação súbita de gravidade zero. O carro capotou no ar, despencando morro abaixo em uma dança violenta de lata retorcida, vidro partido e poeira. Depois, o silêncio absoluto. Nenhum pedido de socorro, nenhuma chance de resgate. As vidas ali contidas se apagaram no plano dos vivos.
Manuela abriu os olhos. O ar ao seu redor tinha uma densidade cinzenta, pesada, com cheiro de fuligem e terra molhada. Ela olhou para as mãos: não havia sangue, mas uma palidez incômoda. Ao seu lado, no meio de uma névoa espessa e disforme, Eduardo caminhava a passos largos, de sobrancelhas franzidas.
— Onde fica essa oficina? O carro nem está mais aqui! E que lugar horroroso é esse? — Eduardo reclamou, a voz ecoando como se estivesse no fundo de um poço.
— A culpa é sua! — Manuela esbravejou, perseguindo-o pela lama escura do que parecia ser um descampos sem fim, povoado por sussurros e figuras cabisbaixas que perambulavam sem rumo. — Você nos jogou nesse fim de mundo!
A negação era um escudo ferroado. Eles não aceitavam. Impulsionados pelo rancor que ainda os acorrentava, começaram a vagar. Em um piscar de olhos de pura angústia, o cenário cinzento do umbral deu lugar à fachada do restaurante onde comemoravam os aniversários de namoro.
Entraram como se nada tivesse acontecido. As pessoas jantavam sob a luz quente das velas, mas ninguém olhou para eles. Eduardo tentou puxar uma cadeira, mas sua mão atravessou a madeira envernizada.
— Viu o que você fez? — Manuela chorou, o som de sua voz agora abafado e sem ressonância física. — Eles estão nos ignorando! Você me fez passar veronha de novo!
— Pare de me culpar! Você me sufocou até o último segundo! — Eduardo vociferou, mas quando olhou no espelho da parede, não viu reflexo algum. Apenas o espaço vazio atrás dele.
Rejeitando a verdade, o ressentimento os arrastou de volta para a penumbra fria e poeirenta do umbral, um purgatório alimentado exclusivamente pelo orgulho de ambos. Uma presença serena e luminosa chegou a se aproximar na bruma, estendendo-lhes as mãos, sussurrando sobre perdão, aceitação e a necessidade de soltar as mágoas para subir o degrau da libertação.
Mas nem a morte foi capaz de calar o ego.
— Pedir desculpas a ele? Nunca! — Manuela deu as costas à luz, agarrando-se ao seu orgulho ferido.
— Eu não cedo mais um centímetro para essa mulher — Eduardo resmungou, caminhando na direção oposta, afundando na névoa.
Presos ao ciclo que eles mesmos alimentavam, os dois fantasmas continuaram a vagar juntos e distantes. Condenados a repetir as mesmas discussões em ruínas de lugares que um dia amaram, acorrentados não pelo destino, mas pela recusa absoluta de perdoar.
Fim
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