Os pecados de Dominique La Place

A neve suja das calçadas de Chicago parecia engolir os passos pesados de Dominique La Place, mas em suas veias o sangue ardia com o calor seco e traiçoeiro da Calábria. Ele era filho de Vincenzo e Maria, dois imigrantes que atravessaram o Atlântico fugindo de uma guerra de clãs da 'Ndrangheta, apenas para erguerem nas Américas o mesmo império de sangue que juravam ter deixado para trás.

​Vincenzo costumava dizer, com a voz gasta pelo fumo e pelo vinho, que a fruta nunca cai longe do pé. Dominique cresceu odiando essa frase. Prometeu a si mesmo que sua vida seria diferente. Estudou, arranjou um emprego legítimo em uma firma de contabilidade e tentou ignorar os sussurros que cercavam o nome da família. Mas o submundo não é algo de onde se sai; é uma gravidade.

​A primeira queda veio quando o irmão mais novo de Dominique contraiu uma dívida impagável com os agiotas de Don Gaetano — o antigo parceiro de seu pai. Para salvar a vida do irmão, Dominique ofereceu a única coisa que tinha valor para aqueles homens: sua inteligência financeira. Ele usou os livros de contabilidade para ocultar o dinheiro das apostas ilegais. "Apenas desta vez", ele repetia mentalmente a cada número alterado.

​Foi a ilusão perfeita. Em pouco tempo, a firma de contabilidade faliu, e Dominique se viu trabalhando exclusivamente no porão esfumaçado do clube de Gaetano. O destino parecia desenhar armadilhas sob medida para ele. Sempre que tentava juntar dinheiro para ir embora, uma nova tragédia surgia: um carregamento roubado que exigia sua intervenção, um suborno urgindo na mesa de um juiz corrupto, ou uma ameaça direta à sua mãe.

​Dominique não era um homem cruel por natureza, mas o ambiente exigia dentes afiados. Sem perceber, começou a adotar os mesmos gestos do pai: o olhar frio sobre a mesa, o hábito de carregar um revólver no cos da calça e a incapacidade absoluta de confiar em qualquer alma viva. Os pecados de Vincenzo e Maria tornaram-se o ar que ele respirava. A herança não veio em terras ou dinheiro, mas na maldição de resolver problemas usando a força e o engano.

​Na noite em que assumiu oficialmente o controle dos negócios da família após a morte de Gaetano, Dominique encarou o próprio reflexo no espelho manchado do escritório. Ele vestia o mesmo estilo de sobretudo que seu pai usava nas fotos antigas da Calábria. Tentara fugir por três décadas, mas cada passo em direção à luz só o empurrava mais fundo para a penumbra. A fruta, afinal, jamais cairia longe da árvore que a nutriu.

Fim

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