O ar de Salvador em 1972 não se respirava, bebia-se. Tinha sabor de querosene, flor de laranjeira e maresia quente. Tariq, que saíra das dunas de Shiraz perseguindo o rastro de um peixe voador que vira num sonho, desbarcou no Porto da Barra vestindo uma túnica surrada e carregando apenas seu alaúde, o oud, cujo bojo guardava o eco dos desertos persas.
Foi tragado imediatamente pela maré psicodélica da Bahia. Entrou em transe ao ver jovens de cabelos infinitos pintando girassóis no Pelourinho e, ao tentar meditar sob uma gameleira, encontrou Mestre Espinho Vermelho. O capoeirista não falava farsi e Tariq não falava português, mas o som não precisa de tradução: quando o oud de Tariq chorou em D-menor, o berimbau do Mestre respondeu em afinação em F-maior. As notas cavaram um buraco no tempo.
Em poucas semanas, Tariq juntou-se ao Circo do Solidão Risonha, uma lona puída armando tenda entre dunas e coqueiros. O circo era um delírio: contorcionistas fluíam como mercúrio, malabaristas jogavam cocos incandescentes e o mastro central era uma palmeira viva que dava frutos no meio do espetáculo.
Depois a alguns anos o religioso do oriente ficou tão conhecido que sua própria tenda era um show de destaque no circo pois atendia também como guru espiritual. Foi debaixo dessa lona que Tariq fundou sua obra-prima impossível: a Orquestra Espiral do Infinito, conhecida popularmente como o Sufir e sua Orquestra de Berimbaus.
A formação era um milagre de arame e madeira. Vinte berimbaus dispostos em semicírculo — gungas, médios e violas —, afinados não pela escala ocidental, mas pela vibração do vento nas marés de Itapuã. No centro, sob o holofote de luz dourada, Tariq sentava-se de pernas cruzadas com seu alaúde.
Na noite de estreia, o circo flutuava. Quando Tariq feriu a primeira corda do oud, o som não saiu pelas caixas, mas emanou da terra. O gunga grave do Mestre Espinho rebateu no bojo do alaúde; a verga do berimbau curvou-se até virar uma serpente de luz. Tariq solava notas que pareciam gotas de mercúrio subindo em direção ao teto da lona. O arco do berimbau e a palheta de pena de águia do alaúde teciam uma tapeçaria onde o misticismo Sufi dos dervixes rodopiantes abraçava o transe do candomblé.
Os espectadores juravam que, durante o solo de Tariq, a lona do circo se abriu para o céu estrelado do Oriente Médio, enquanto o cheiro de incenso e alfazema transformava a areia do picadeiro em poeira de ouro. Tariq não tocava o instrumento; ele próprio virara corda, vibração e espaço vazio, rodopiando parado no centro de um universo que falava baiano e sonhava em farsi.
Durante suas apresentação o Sufir parava de tocar seu alaúde e aleatoriamente apenas dizia num português regional com sotaque árabe e baiano frases que eram vendidos em pequenos livretos:
- O Espelho da Alma: O coração é como um espelho. Se estiver coberto pela poeira do ego, do rancor e da preocupação, ele não refletirá a luz divina. Limpar o espelho é um trabalho diário de desapego e presença.
- A Ilusão da Ferida: "A ferida é o lugar por onde a luz entra em você." (Rumi). As dores e dificuldades não surgem para destruir, mas para abrir espaço para a transformação e para a compaixão.
- Morrer Antes de Morrer: O verdadeiro crescimento exige a "morte" do ego — isto é, abandonar a necessidade de controle, a vaidade e as certezas absolutas. Quem morre para o próprio ego aprende a viver de verdade.
- O Presente do Momento: O Sufi é frequentemente chamado de "filho do momento" (Ibnu'l-Waqt). O passado já não existe e o futuro é apenas uma imaginação; a única realidade onde a paz pode ser encontrada é o agora.
- A Busca e o Buscador: Aquilo que você procura também está procurando você. A verdadeira jornada espiritual não consiste em viajar para longe, mas em retornar para dentro de si mesmo.
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