O Doutor fitness e a teoria de milênios

O Doutor fitness  e a Teoria dos Milênios
 
Quando abrimos as portas da nova Faculdade de Medicina e Nutrição de São Paulo, no interior tranquilo da região de Ribeirão Preto, todos me olhavam como uma referência. Jovem, renomado, com artigos publicados nos melhores periódicos e uma carreira que parecia traçada pelas mãos da própria sorte. Doutor Lucas, especialista em nutrição humana, professor querido, respeitado. Mas ninguém — nem meus colegas, nem meus alunos, nem minha família — sabia o que realmente se escondia por trás dos meus olhos atentos e das minhas aulas sobre dietas equilibradas.
 
Minha teoria, aquilo que estudo há anos e que nunca ouso publicar por ser um tabu absoluto, é simples e brutal: a ciência classifica o ser humano como onívoro, capaz de comer de tudo. Mas a história, a biologia e os instintos que carregamos há milênios contam outra verdade. Nós nunca fomos caçadores de presas vivas, capazes de abater um animal com as próprias mãos e dentes. Nós sempre fomos, desde os primeiros povos, necrófagos. Comedores de carne morta. Sobrevivemos porque aprendemos a encontrar o que já havia morrido, a aproveitar o que a natureza ou outros predadores deixaram para trás. Essa é a nossa essência, muito mais do que qualquer rótulo moderno.
 
Hoje, com a ascensão do vegetarianismo, do veganismo, da dieta macrobiótica e de tantas outras correntes que exaltam a pureza dos alimentos, as pessoas se afastam cada vez mais dessa verdade ancestral. Elas querem se sentir leves, puras, saudáveis. E é exatamente aí que começa o meu segredo — um segredo tão sombrio que, se descoberto, me faria passar de exemplo de virtude a monstro absoluto.
 
Eu sou um sequestrador. E, acima de tudo, um canibal. Mas não um canibal qualquer. Eu sou, na definição mais rigorosa do termo que eu mesmo criei, um canibal fitness.
 
Escolho minhas vítimas com o mesmo cuidado e critério com que escolho os ingredientes de um estudo científico. Nunca escolho quem come de tudo, quem consome gorduras saturadas, açúcares em excesso ou alimentos processados. A carne dessas pessoas é dura, cheia de toxinas, gordura ruim, colesterol alto. Não serve para o meu propósito.
 
Minha preferência absoluta são os herbívoros estritos, os adeptos da dieta macrobiótica e, principalmente, os veganos. Pessoas que dedicam anos de suas vidas a alimentar-se apenas do que a terra oferece, que evitam qualquer agrotóxico, que se exercitam, que mantêm o corpo limpo e o sangue puro. Para mim, eles são o alimento perfeito.
 
Nas minhas aulas, eu ensino sobre proteínas, sobre aminoácidos essenciais, sobre a importância de uma alimentação baseada em qualidade. E à noite, ou nos fins de semana, quando ninguém me vê, eu coloco esse conhecimento em prática da forma mais extrema possível. Sequestro-os com precisão, sempre de forma que não haja pistas, sempre mantendo minha imagem de médico exemplar intocada.
 
Quando os tenho em meu poder, o que faço não é apenas uma violência, é um ritual de seleção. Observo a constituição física, a textura da pele, a vitalidade. Depois, quando chega a hora da preparação, estudo cada órgão, cada músculo, cada parte do corpo como se fosse uma peça de anatomia. E, de fato, é. Escolho as vísceras com maior teor de ferro, os músculos mais ricos em proteínas magras, os tecidos livres de qualquer gordura nociva. A carne deles é macia, saborosa e, acima de tudo, nutricionalmente impecável.
 
Para mim, não é apenas sobre satisfazer um desejo ou uma fome comum. É sobre voltar à nossa natureza de necrófagos, mas fazê-lo da forma mais evoluída possível. É consumir o que há de mais saudável, o corpo de quem se alimentou da melhor forma que a terra pode dar. É uma lógica que só eu compreendo: se o ser humano sempre foi feito para comer carne morta, qual carne seria melhor do que a de um corpo que foi cultivado com os alimentos mais puros e corretos?
 
Enquanto o mundo discute se devemos comer carne ou só plantas, eu caminho pelos corredores da faculdade com um sorriso calmo, carregando nas entranhas a prova viva da minha teoria. Sou o médico que ensina a viver bem, e o predador que se alimenta daqueles que tentam viver da forma mais correta possível.
 
E ninguém, absolutamente ninguém, desconfia que o maior especialista em nutrição da região também seja o único homem que realmente compreendeu — e praticou — o que significa ser humano na sua forma mais antiga, oculta e terrível.

Fim 

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