Era um sujeito chamado Tonho. Menino esquisito desde pequeno, mas esquisito para o bem.
Acontece que o Tonho tinha uma birra feia com a palavra "tchau". Achava a coitada seca demais, com cara de ponto final. Parecia portão batendo na cara. Então ele inventou a própria regra: não falava "tchau" por nada nesse mundo. Preferia um "até breve", um "até logo", um "até amanhã" ou, na pior das hipóteses, um "se cuida". Para o Tonho, quem diz "tchau" fecha a porta; quem diz "até logo" deixa a chave debaixo do tapete.
Essa mania rendeu história.
A primeira foi na escola, na quinta série. A professora de português, dona Clotilde — daquelas que corrigem até o jeito de respirar —, mandou a turma se despedir em espanhol na saída.
— Alunos, como se diz "tchau" em espanhol?
Todo mundo respondeu em coro: "¡Chao!"
Tonho ficou quieto. A professora encarou o menino:
— Tonho, você não vai dar tchau?
— Deus me livre, professora. Digo "hasta la vista", que soa como quem pretende voltar. "Tchau" é palavra de quem desiste.
Dona Clotilde não soube se dava zero ou se abraçava o garoto.
Anos depois, o hábito virou teste de amor. Tonho namorava a Valéria, moça brava como pimenta malagueta. Um dia, depois de uma briga colossal por causa de futebol na televisão, ela juntou as coisas dela, botou a bolsa no ombro e disparou na porta:
— É isso, Tonho! Acabou! Me dá um tchau decente e esquece meu número!
Tonho olhou para ela, calmo como lago de interior, e mandou:
— Tchau, não dou. Te vejo terça, na feira.
A moça parou no meio do corredor. Tentou bater a porta com raiva, mas o "terça na feira" ficou martelando na cabeça dela. Na terça-feira, lá estava a Valéria na barraca do pastel, fingindo que ia comprar pastel de vento só para cruzar com ele. Não teve jeito. Casaram três anos depois.
A prova de fogo, porém, veio no hospital. O avô do Tonho, o Seu Zé, estava velhinho, fraquinho, prestes a subir a serra. A família inteira em volta da cama, aos prantos, dizendo aquele "tchau" chorado de despedida final.
Quando chegou a vez do Tonho, ele segurou a mão calejada do velho, deu um sorriso fraco e cochichou no ouvido dele:
— Até amanhã, vô. A gente se esbarra no bar do céu.
O velhinho deu um suspiro fundo, deu uma risadinha sem dente e fechou os olhos em paz.
Moral da história? O Tonho ensinou pra rua inteira que a vida é curta demais pra gente usar palavra que separa. Ficou conhecido no bairro como o único homem que nunca deu tchau para nada. Nem para a vida.
Fim
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