Dona Helena já corrigira mais de trinta redações naquela tarde abafada, todas repetindo a mesma ladainha decorada que ela própria ensinava havia mais de vinte anos: margens do Ipiranga, cavalos brancos, bravos brados e um verde-amarelismo ufanista de livro didático. Já esperava o de sempre para as turmas da 6ª série. Até abrir a folha dobrada de Maicon Júnior.
Não havia ali nenhum desenho de bandeira colorida a giz de cera, tampouco rimas fáceis sobre "patria amada".
A cada estrofe lida, a caneta vermelha na mão de Helena ia perdendo a força até pousar, esquecida, sobre a mesa de madeira da sala dos professores.
Em poucas linhas, um garoto de doze anos desmanchava dois séculos de ufanismo com a precisão de um cirurgião.
Com mais de 30 décadas de magistério e quase 70 anos de vida neste país, Helena sentiu um nó na garganta.
Olhou pela janela da escola e percebeu que nunca tinha parado para encarar aquela verdade: a tal independência, celebrada com cornetas e desfiles todo ano, não passava de uma utopia confortável, uma ilusão bem contada para fazer o povo marchar sorrindo enquanto carrega o peso das próprias correntes.
Maicon não tinha feito apenas um trabalho escolar; tinha tirado a venda dos olhos de quem passou a vida inteira ensinando a história pela metade.
Grito no Vazio - Aluno : Maicon Junior - 6 série 4 matutino
Sete de setembro de dois mil e vinte e seis,
E a história se repete pela milésima vez.
O brado do Ipiranga, que o livro gosta de pintar,
Foi só um rei trocando a cor do verbo dominar.
Mudou-se a cor da farda, manteve-se o senhor,
A terra dividida sob a chibata do valor.
Passaram-se dois séculos de marcha e ilusão,
Da corte ao presidente, do império à nação.
O povo, que assistia besta sem entender o jogo,
Continua na plateia vendo o país pegar fogo.
Prometeram liberdade na folha do papel,
Mas quem paga a conta nunca sente o sabor do mel.
Esquerda, direita, coroa ou eleição,
Troca-se o carrasco, mas não a correntes do chão.
O brasileiro acorda cedo, corre pra trabalhar,
Paga o imposto do rei sem ter onde morar.
Querem que a gente cante o hino de pé e com orgulho,
Enquanto a independência não passa de barulho.
Sete de setembro não é dia de festejar,
É lembrete doloroso do que temos que aturar.
A liberdade aqui nunca passou de uma miragem,
E a nossa independência... foi só uma vantagem
Que os donos do poder usaram pra nos convencer
Que somos livres pra escolher como vamos obedecer.
Fim
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