O espelho do banheiro nunca soube mentir, e Marcos também não. Diante do vidro embaçado, a imagem que o encarava era a de um homem de meia-idade com a testa cada vez mais larga, onde o cabelo preto de antigamente deu lugar a uma calvície sem volta. Aos cinquenta e poucos anos, o corpo já começava a dar seus primeiros avisos: a pressão subia sem avisar, as costas reclamavam ao levantar e as dores nas articulações viraram companhia diária.
Marcos tinha a vida na medida certa do comum. Nem alto, nem baixo; nem gordo, nem magro. Tinha o tamanho certo, o peso médio e uma profissão honesta no escritório de contabilidade, onde tirava o suficiente para pagar as contas e viver sem grandes luxos, embora a riqueza nunca tivesse passado perto da sua porta. Nunca foi um líder natural, daqueles que entram num recinto e dobram os olhares. Era quieto, introspectivo e carregava desde a infância uma dislexia que o fazia gaguejar ao ler em público e uma incapacidade quase cômica de mentir. Se a roupa de alguém estivesse feia, ele não conseguia elogiar; se estivesse inseguro, seu rosto entregava. Numa era onde todos vendem ilusões, a sinceridade nua de Marcos soava quase como defeito.
E por causa dessa combinação de invisibilidade e transparência, Marcos nunca namorou. Nunca teve uma esposa, um noivado, nem mesmo um namorico de alguns meses. A única exceção na sua vida afetiva tinha sido uma amizade colorida nos tempos distante da faculdade. Uma colega de turma com quem dividia alguns fins de tarde entre livros e lençóis, sem promessas, que logo partiu para outra cidade e deixou apenas a lembrança do cheiro de perfume barato no seu casaco.
Depois disso, veio o silêncio.
Mas, por dentro, Marcos queimava. Ele sempre fora um homem heterossexual convicto, com uma alma antiga e uma fome constante. Não era apenas desejo físico — embora a vontade do prazer carnal, do toque e da pele fosse imensa —, mas sim uma Fome de Mulher por inteiro. Ele queria aquele romance utópico que parecia ter ficado preso nos livros do século passado: a vontade visceral de ter uma fêmea para proteger, para mimar com café na cama aos domingos, para chegar em casa e ouvir o som dos sapatos dela no corredor. Ele sonhava em ser o suficiente para alguém. Queria um casamento de cumplicidade pura, onde a verdade dele não fosse um fardo, mas um porto seguro.
Os anos, porém, passaram como água entre os dedos. A juventude foi embora, a calvície se instalou, os remédios diários passaram a ocupar a prateleira da cozinha, e a certeza de que mais da metade da sua expectativa de vida já tinha ficado para trás se tornou um peso no peito. Entrando no seu último terço de jornada neste mundo, Marcos finalmente dobrou os joelhos e desistiu. Parou de olhar para os lados nas ruas, parou de tentar puxar assunto no mercado, aceitou a solidão do seu apartamento silencioso.
E mesmo assim, a fome continuava lá.
Nas noites frias de domingo, enquanto assistia à televisão sozinho no sofá surrado, ele olhava para as próprias mãos calejadas pelo tempo. O corpo envelhecia, as doenças batiam à porta, o cabelo ia embora e a esperança já tinha morrido. Mas no fundo do peito, como uma brasa que recusa virar cinza, a alma do velho Marcos ainda acordava todas as manhãs com a mesma e incorrigível fome de mulher.
Fim
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