A sabedoria vem de onde menos se espera

O sol das três da tarde queimava no ponto de ônibus da Praça da Sé, em meados de 2005. Ao lado de Zeca, um jovem de terno amassado roia as unhas, encarando a tela do celular a cada dez segundos.

​— Cara, se ela não me atender agora, meu casamento acaba. Eu dou tudo pra aquela mulher, trabalho doze horas por dia! Por que ela não valoriza?

​Zeca ajustou o boné desgastado com o tempo, olhando o trânsito sem pressa. Ouviu a enxurrada de lamentações do rapaz por dez minutos sem dar uma palavra. Quando o ônibus dobrou a esquina, Zeca virou o rosto e disse:

​— Quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta.

​O jovem travou. O celular quase escorregou da mão enquanto a frase assentava como uma pedra num lago quieto. Zeca subiu o primeiro degrau do ônibus sem olhar para trás.

​Anos mais tarde, numa fila de lotérica em 2014, o cenário era outro, mas a dor era parecida. Uma senhora de meia-idade desabafava alto com a caixa do estabelecimento, revoltada com o sócio do filho que os havia passado para trás num negócio de calçados.

​— A gente confiou nele! Colocamos o sujeito dentro da nossa casa, dividimos o pão! Como é que a pessoa tem coragem de fazer uma barbaridade dessa?

​A fila inteira murmurava em concordância, alimentando a raiva da mulher. Zeca, três posições atrás, mantinha as mãos nos bolsos e os olhos atentos, lendo o cansaço no rosto dela. Quando a senhora pegou o troco, desolada, ele deu um passo à frente.

​— Cachorro que apanha do dono não esquece o pau, dona. Mas quem dá o pão não pode esperar a alma do cão em troca.

​Ela parou no meio do salão. A raiva nos olhos deu lugar a uma clareza dolorosa: o erro não fora confiar, fora esperar nobreza de quem nunca a teve.

​Em 2022, dentro de um táxi rodando na chuva em direção à rodoviária, o motorista desabafava sobre o filho que abandonara a faculdade de direito para tentar a vida na internet.

​— O moleque tinha tudo, Zeca! Um futuro garantido! Agora quer viver de vídeo, de vento! Não sei onde errei na criação.

​Zeca olhou a chuva escorrer pelo vidro do passageiro. Deixou o homem desabafar pela corrida inteira, acumulando a frustração do pai no ar abafado do carro. Ao estacionar no desembarque, o motorista virou para pegar o dinheiro. Zeca entregou as notas e falou:

​— Passarinho que anda com morcego acorda de cabeça pra baixo, é verdade... mas gaiola de ouro não faz passarinho cantar. Deixa o menino voar, que o chão ensina mais que o pai.

​O motorista ficou com as notas na mão, olhando Zeca desaparecer na multidão da rodoviária.

​Não havia diploma na parede da casa simples de Zeca. Sua ciência era o silêncio, sua clínica era a rua, e seu remédio, a palavra certa na hora exata.

Fim

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