Últimas palavras de quem decidiu partir


21 de agosto de 2026

​Esta é a minha última entrada. As mãos tremem não pelo frio, mas pelo peso tardio da lucidez. Passei décadas vegetando, empurrando o tempo em silêncio. Sem amigos, sem amor, sem metas. Nunca fui feliz, tampouco dei a alguém o privilégio de um sorriso sincero. Fui um fantasma que apenas sobreviveu, um dia de cada vez, orgulhoso de uma pretensa lucidez que acabou por ser minha própria cela.

​Se escrevo isto, é como um ato final de reparação para quem vier depois de mim.

​Existe uma frase ancestral que ecoa no meu peito hoje: memento mori — lembre-se de que você morrerá. Durante a vida toda, interpretei o fim de forma fria e paralalisante. Julguei que, por ser tudo passageiro, nada valia o esforço. Deixei de amar por medo da perda, deixei de sonhar por medo da frustração. E esse foi o meu maior erro.

​Descobri tarde demais que os afetos, os sonhos, a esperança e as amizades — por mais frágeis e imperfeitas que sejam — são o tempero indispensável da curta existência humana. São doce ilusão? Talvez. Mas sem esse anestésico contra o peso bruto do existir, a vida torna-se insuportável. A ignorância para a dor do mundo e a capacidade de fantasiar o amanhã são uma verdadeira bênção. Se acordamos cedo demais para a crueza da realidade, existir deixa de ser uma aventura viável.

​Por isso, deixo este último conselho: carpe diem — aproveite o dia. Não como um clichê raso, mas como uma urgência visceral. Abrace os sonhos antes que o cinismo os mate. Cultive amigos, apaixone-se, erre, busque metas absurdas. Encha sua caminhada de significado antes que a vela se apague.

​Não cometa a tolice de apenas durar. Viva, antes que lembre, tarde demais, que o tempo acabou.

Fim 

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