Sandro morava sozinho numa casa de dois quartos no fim de uma rua de paralelepípedo, no interior de São Paulo. Era técnico de laboratório num hospital pequeno, passava o dia manuseando tubos de ensaio, cheirando formol e ouvindo o barulho contínuo de máquinas que ninguém entende direito. Chegava em casa todo dia por volta das onze da noite, com a marmita do almoço meio fria na mochila, e não tinha mais nada para fazer além de trocar de roupa, ligar a TV num volume baixo e esperar o sono que quase nunca vinha.
Ele tinha ansiedade generalizada, depressão das bravas e insônia que já durava três anos. Os remédios ajudavam um pouco, mas havia noites em que ele olhava para o teto até o sol raiar, pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo, com o peito apertado como se alguém estivesse sentado em cima dele. Não tinha família por perto, não tinha amigos para tomar uma cerveja no fim de semana. A sua vida era um ciclo: hospital, casa, hospital, casa. Até o dia em que ele parou na esquina para acender um cigarro e viu os três.
Eram cachorros de rua, típicos vira-latas brasileiros. A maior, uma fêmea preta com uma cicatriz no focinho, era a chefe de tudo. Andava sempre na frente, com a cabeça ereta, e nenhum outro cachorro da região ousava encará-la. Atrás vinha um macho preto menor, com uma orelha caída, que era o segundo no comando — nas noites de cio, brigava com qualquer um que chegasse perto da fêmea, e quase sempre voltava com arranhões ou um dente a menos. E por último, sempre por último, vinha o caramelo.
O caramelo era o mais fraco da matilha, o mais magro, o que nunca ganhava uma briga. Mas ele tinha um dom: era fofo de doer. Tinha olhos grandes e úmidos, rabo que abanava até a cintura quando via um humano, e sabia ficar sentado quietinho, com a língua de fora, até que alguém se comovesse e desse um pedaço de pão. A matilha usava ele como isca: mandavam o caramelo na frente para sensibilizar a gente, e quando a comida caía no chão, a fêmea preta e o outro macho chegavam de uma vez, empurravam o caramelo para o lado e comiam tudo. Ele ficava lá, olhando, sem latir, sem brigar, só esperando sobrar uma migalha.
Sandro começou a dar os restos da sua marmita para eles. Todo dia, na volta do hospital, parava na mesma esquina, abria a marmita e separava os pedaços. Sabia que os dois maiores iam tomar a maior parte, então sempre escondia um pedaço de bife ou de frango debaixo da palma da mão, e só dava para o caramelo quando os outros estavam distraídos. O caramelo aprendeu rápido. Quando via Sandro chegar, já fazia uma curva para longe dos outros dois, vinha devagar, cheirava a sua mão e pegava o pedaço manso, sem morder.
Isso durou uns seis meses. Os três passaram a esperar por ele na esquina, deitados na calçada em frente à padaria. Um dia, porém, a dona da padaria resolveu reclamar. Disse que a fêmea preta tinha latiu para uma menina de seis anos que ia comprar pão de queijo, que o bicho era perigoso, que aquilo não podia. No dia seguinte, quando Sandro chegou do hospital, a esquina estava vazia. O padeiro, que estava fechando o caixa, olhou para ele e disse só:
— Passou a carrocinha há uma hora. Levou a fêmea preta. Os outros dois fugiram para o mato atrás da rodovia.
Sandro ficou ali parado por uns dez minutos, com a marmita ainda aberta na mão. Voltou para casa devagar, sem saber por que estava com o peito ainda mais apertado que o normal.
Dois dias depois, os dois machos voltaram. O preto menor estava com a pata traseira ferida, mancando, todo sujo de barro. O caramelo vinha atrás dele, mais magro que nunca. Sandro tentou chegar perto do macho ferido para ver se levava no veterinário, mas o cachorro rosnou, mostrou os dentes e fugiu. Ele só conseguiu dar comida para o caramelo, que comeu devagar, olhando para os lados como se esperasse a fêmea preta aparecer a qualquer momento.
Uma semana depois, um vizinho que trabalhava na rodovia que corta os três bairros contou para Sandro:
— Aquele cachorro preto que mancava? Foi atropelado ontem de madrugada. Ninguém viu o carro, ninguém parou para ajudar. A prefeitura já levou o corpo.
Naquela noite, Sandro foi até a esquina. O caramelo estava lá sozinho, deitado exatamente no mesmo lugar onde os três costumavam dormir todos os dias. Ele não abanou o rabo quando viu Sandro chegar. Só levantou a cabeça, olhou para ele, e baixou de novo. Sandro sentou na calçada ao lado dele, abriu a marmita, tirou o melhor pedaço de frango que tinha e colocou no chão. O caramelo comeu devagar, sem pressa. Quando terminou, se aproximou de Sandro e encostou a cabeça fria no seu joelho.
Foi assim que eles ficaram só os dois.
No começo, o caramelo dormia no alpendre da casa de Sandro. Depois de uma semana de chuva forte, Sandro abriu a porta da sala e disse:
— Pode entrar. Mas não faz bagunça, entendeu?
O cachorro entrou devagar, cheirou todos os cantos, e deitou no pé do sofá, onde ficaria a maior parte do dia. Sandro ainda tinha noites de insônia, ainda tinha dias em que chegava do hospital e não tinha vontade nem de tomar banho. Mas agora ele tinha um motivo para sair da cama: quando o sol nascia, o caramelo vinha até o quarto, punha a pata fria no rosto de Sandro e latiu baixinho, como se dissesse “acorda, que eu estou com fome”.
E o caramelo, que um dia comeu qualquer coisa por pura fome — migalha de pão, casca de batata, resto de macarrão frio —, descobriu que agora tinha alguém que dava comida de verdade. E ficou exigente. Um dia Sandro comprou ração cara, pensando que ia agradar. O caramelo chegou perto, cheirou o pote, deu meia volta e foi até a porta da cozinha, olhando para Sandro com cara de quem diz: “isso aqui não é comida, cara. Tem coisa melhor aí dentro, né?”.
Outra vez Sandro deu salsicha cozida. O cachorro lambeu uma vez, deixou a salsicha no chão e foi deitar. Não comeu.
Sandro descobriu que o caramelo só come o que tem cheiro de carne de verdade. Pedaço de frango da marmita do hospital, sim. Costelinha de churrasco que o vizinho faz no domingo e traz um pedaço para ele, sim. Feijão com pedaço de carne que Sandro cozinha de vez em quando, sim. Ração, não. Salsicha, não. Pão com ovo, só se tiver bastante carne misturada.
— Você é um cara chato, sabia? — Sandro dizia para ele, rindo baixo, enquanto separava os melhores pedaços do seu prato. — Quando era o último da matilha, comia até pedra. Agora que tem casa, virou rei.
E era verdade. O caramelo fazia a sua ronda todos os dias pelos três bairros vizinhos, como se ainda fosse o chefe de tudo. Latia para o carteiro, corria atrás de gato, dormia na praça de tarde quando o sol estava quente. Mas às seis horas da tarde, sem falta, ele estava parado na porta do hospital esperando Sandro sair. Caminhava ao lado dele até a casa, sempre com a orelha em pé, atento a qualquer barulho, como se fosse o seu guarda-costas particular.
Sandro ainda toma remédio. Ainda tem noites em que acorda de madrugada com o coração disparado, pensando em coisas que não têm solução. Ainda tem dias em que não quer falar com ninguém, em que o mundo parece muito pesado para carregar sozinho. Mas agora, nesses dias, ele olha para o caramelo, que está deitado no sofá com a barriga para cima, ronco alto como um motor de moto, e pensa: “se eu não levantar daqui, quem vai dar o pedaço de frango para ele? Quem vai abrir a porta para ele fazer xixi no jardim? Quem vai ficar aqui quando ele voltar da ronda?”.
E o caramelo, que um dia foi o último da matilha, o que sempre levava a pior na hora da comida, o que sobreviveu à carrocinha, às brigas e ao atropelamento que matou os seus amigos, agora sabe que tem um lugar. Ele tem uma cama no pé da cama de Sandro. Tem alguém que separa os melhores pedaços de carne para ele. Tem alguém que fica preocupado quando ele demora a voltar da ronda. Tem alguém que, mesmo nos dias em que não tem vontade de viver por si mesmo, vive um pouco mais por causa dele.
Os dois continuam sozinhos, no fundo. Sandro não fez amigos novos, não mudou de cidade, não curou a depressão do dia para a noite. O caramelo continua sendo um vira-lata caramelo que faz a sua ronda por três bairros, que não come ração nem salsicha, que dorme com a língua de fora.
Mas de certa forma, eles não estão mais sós. Um precisa do outro para comer. O outro precisa do primeiro para ter um motivo para acordar todo dia. E no fim, para quem já passou muito tempo sem nenhum motivo, um cachorro caramelo exigente que espera você na porta do hospital já é mais do que suficiente para continuar.
Por Alex Sandro Alves
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