Tempos capiciosos... Futuros certos para despiorar o que já era planejado de num dar certo!
Seu Valtinho cuspiu no chão poeirento da varanda, ajustou o chapéu de palha desfiado e olhou para o céu limpo, sem ponta de nuvem. O café na caneca de ágata já estava frio, mas o desgosto de ter a vida ajeitada contra a própria vontade era brasa viva no peito.
O plano dele e de Compadre Miro era perfeito. Tinha sido desenhado no chão de terra batida com um graveto de goiabeira, com toda a precisão que a falta do que fazer proporciona. A ideia era simples: derrubar a estaca da cerca do pasto seco para deixar as três vacas magras escaparem para a rodovia. Sem as vacas, Valtinho alegaria falência total da pequena leitaria, conseguiria o perdão automático da dívida com o banco rural e ainda garantiria o auxílio-emergencial da prefeitura, reservado aos produtores flagelados pela estiagem.
Era uma engenharia do fracasso, pensada nos mínimos detalhes para dar terrivelmente errado com toda a dignidade possível.
Mas o destino, esse sujeito debochado que não aceita concorrência, resolveu intervir.
Na noite combinada, Miro soltou o arame. As vacas, contudo, demonstrando uma preguiça histórica e uma falta absoluta de ambição, não foram para a rodovia. Caminharam apenas três metros até o pé da grota seca nos fundos do terreno. A vaca mais pesada, batizada ironicamente de Estrela, pisou em uma tábua podre que cobria o olho de uma mina de água esquecida desde os tempos do barão do café.
A mina jorrou. Não jorrou água limpa para beber, nem petróleo para deixar ninguém rico. Jorrou uma lama escura, borbulhante e com um cheiro medonho de enxofre com ovo choco.
A notícia correu o arraial mais rápido que fofoca de quermesse. Antes do meio-dia, o fiscal do banco não veio para dar baixa na dívida; em seu lugar, apareceu um doutor da capital, de óculos escuros e caminhonete limpa, alardeando que aquela "lama sulfurosa" era uma bênção medicinal, milagrosa para as dores nas juntas e reumatismo antigo.
Em menos de três dias, o pasto seco de Valtinho virou um ponto de romaria de idosos abastados.
Ele não conseguiu o perdão do banco — que, pelo contrário, renegociou o empréstimo cobrando uma taxa de turismo rural —, mas agora cobrava dez tostões por balde de lama retirado da grota. Para piorar a situação de quem só queria o sossego da miséria reconhecida, Compadre Miro inventou de vender pastel de vento e garrafinha de garapa para os visitantes, transformando o terreiro em um comércio barulhento.
— Não fica triste, Valtinho — consolou Miro, tirando uma palha de milho da boca e contando um maço de notas amassadas. — A gente não pegou a cesta básica da prefeitura, mas já dá para pagar a promissória do armazém e arrumar o telhado da cozinha.
Valtinho olhou para o quintal. Onde antes reinava o silêncio sagrado da sua decadência, agora havia três velhinhos enterrados até o pescoço no barro fedorento, conversando animadamente sobre o tempo e a pressão arterial.
A vida era mesmo uma travessura sem tamanho. Não deixava o homem afundar na desgraça como ele bem planejava, mas também não o tirava do atoleiro. Apenas desajeitava o azar, mudando os rumos só o suficiente para empurrar a rotina com a barriga.
— Pois é, Miro... — suspirou o velho, aceitando a derrota de continuar prosperando a trancos e barrancos. — O sujeito se mata de pensar num jeito perfeito de se dar mal, e o universo vem, estraga o plano e ainda faz o estrago render juros.
Fim
Por Alex Sandro Alves
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