As luzes do Parque das Águas tinham acabado de se apagar, mas, do outro lado do rio, duas cabecinhas sobressaiam da água, refletindo o brilho do luar. Xande e Leko eram duas ariranhas curiosas que passavam o dia todo observando os tobogãs gigantes e as piscinas de ondas.
— Leko, você viu aquele escorregador azul? — perguntou Xande, dando uma pirueta na água e jogando respingos para o alto. — Se a gente treinasse um pouco, aposto que conseguiria descer ali fazendo malabarismo com uma pedra! As pessoas iam adorar. Nós seríamos as maiores atrações daquele lugar.
Leko soltou um chiado baixo, meio rindo, meio pensativo. Ele se apoiou num tronco caído perto da margem e olhou para o irmão.
— Xande, ariranhas vivem no rio, não em parques de gente. Eles têm golfinhos de borracha e tobogãs de plástico. A gente tem peixe fresco e correnteza. Será que eles iriam querer ver a gente?
— Claro que sim! — respondeu Xande, aproximando-se e boiando de costas ao lado dele. — O rio é incrível, mas imagina apresentar um show só nosso? Você entra pela esquerda, dá três giros no ar, e eu venho por baixo fazendo bolinhas de sabão natural. A gente não precisa ser de plástico, Leko. A gente só precisa fazer juntos.
Leko olhou para as garras das próprias patas, depois para o olhar animado de Xande. O entusiasmo do irmão era contagioso, como uma marola que vai crescendo até virar onda.
— Três giros? — Leko sorriu, ajeitando os bigodes. — Eu consigo dar quatro se você segurar a minha cauda no final. Mas com uma condição: a gente ensaia todo dia no remanso da cachoeira até sair perfeito.
— Fechado! — comemorou Xande.
Nas semanas seguintes, o rio virou um verdadeiro palco. Enquanto os outros animais descansavam, Xande e Leko praticavam saltos sincronizados, mergulhos profundos e acrobacias no ar. Quando um errava a pirueta, o outro puxava para a superfície com uma risada. O desejo de chegar ao parque não era mais só de Xande; tinha se tornado o coração dos dois.
Certa manhã, um grupo de biólogos do parque aquático foi ao rio para estudar a fauna local. Ao pararem o barco perto da cachoeira, ficaram boquiabertos. Diante deles, duas ariranhas executavam uma dança aquática perfeitamente coreografada, saltando juntas sobre a água e brincando com uma sintonia impressionante.
Os pesquisadores não levaram Xande e Leko para o parque. Em vez disso, o parque mudou. Eles criaram um deque de observação ecológico na beira do rio, onde os visitantes podiam ver as ariranhas apresentarem seu show natural, livres e felizes em seu próprio lar.
Naquela noite, cansados depois de aplausos verdadeiros, Xande e Leko boiavam lado a lado sob as estrelas.
— Viu só? — sussurrou Xande. — A gente conseguiu nosso show.
— É verdade — Leko respondeu, fechando os olhos devagar. — Um sonho que a gente sonha sozinho é só um desejo, irmão. Mas quando a gente sonha junto, a realidade dá um jeito de acontecer.
Fim
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