O sótão da velha mansão cheirava a poeira e mofo acumulados por gerações. Tomás, aos doze anos, ignorava os avisos de não mexer no espólio. Aquela casa, herdada exclusivamente pela mulher mais velha de cada geração da família, guardava segredos que sua mãe sempre preferiu trancar.
No fundo de um baú de carvalho, as mãos pequenas do garoto encontraram uma caixa de pau-brasil. Dentro, repousava um baralho de tarô gasto, com ilustrações vivas que pareciam pulsar sob a luz fraca. Ingenuo, Tomás espalhou as cartas pelo chão e se acomodou na pesada poltrona de couro surrado, coberta por um lençol vermelho-carmim. O tecido cheirava a alfazema e terra úmida. Em minutos, o balanço da tempestade do lado de fora o embalou em um sono profundo.
O sonho não começou como sono, mas como um despertar. Tomás se viu no corredor infinito de uma mansão vitoriana, iluminado por castiçais de prata. Ao seu lado, com mãos gélidas e olhar penetrante, estava sua falecida bisavó, Isadora.
— Preste atenção, menino, sussurrou a mulher, cuja voz ecoava como folhas secas. Cada porta é um Arcano. Cada segredo tem um preço.
Isadora o guiou por portas entalhadas. Atrás da primeira, o Louco gargalhava à beira de um abismo sem fim, ensinando-o a saltar no desconhecido. O Mago, em um quarto repleto de espelhos, mostrou como moldar a realidade com a intenção. A Papisa, velada em sombras escuras, sussurrou profecias no ouvido de Tomás que fizeram suas sêmens de medo germinar. Em cada quarto, a atmosfera se tornava mais pesada, arrepio e fascínio se misturando enquanto a bisavó decodificava a antiga arte esotérica. Não eram apenas cartas; eram entidades vivas que exigiam respeito e absorviam a vitalidade do ar.
Quando Tomás finalmente abriu os olhos na poltrona carmim, o sol da manhã entrava pela janela do sótão. Ele não era mais a mesma criança. Seus olhos carregavam uma profundidade antiga e perturbadora.
Sem hesitar, o garoto levou o baralho para o seu quarto e abriu um canal na rede escura da internet. A fama não demorou. Pessoas do mundo todo pagavam fortunas em criptomoedas para ter alguns minutos de consulta com o jovem prodígio. Tomás previa tragédias, revelava segredos ocultos e direcionava destinos com uma precisão aterrorizante. No entanto, ninguém sabia o verdadeiro custo: a cada tiragem bem-sucedida, o lençol carmim no sótão amanhecia com uma nova e profunda mancha escura, e a voz de Isadora ecoava em seus sonhos, lembrando-o de que a dívida com os Arcanos sempre cobra seu juro.
Fim
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