O Homem que Casou Consigo Mesmo


Carlos tinha 50 anos, cabelos já salpicados de branco e um jeito tímido que parecia ter nascido com ele. Morava sozinho em um apartamento pequeno, no centro de uma cidade média do interior do Paraná, cercado por livros, plantas e o silêncio que se tornou seu companheiro mais constante. Nunca havia beijado ninguém, nunca tinha tido um namoro, nunca tinha vivido uma noite de intimidade — e não por falta de vontade, mas por falta de jeito. Sempre que tentava se aproximar de uma mulher, as palavras fugiam, as mãos suavam frias e ele acabava se afastando, convencido de que não era “o tipo de homem” que alguém escolheria para amar.
 
Um dia, navegando pela internet numa tarde chuvosa, encontrou um anúncio de um site internacional, famoso em vários países, que prometia: “Encontre sua alma gêmea — compatibilidade absoluta, baseada em quem você realmente é”. Dizia que usava algoritmos avançados, cruzava dados de milhões de pessoas e só mostrava resultados quando a sintonia era perfeita. Carlos hesitou por dias, mas a ideia de finalmente encontrar alguém que o entendesse, que não o achasse estranho ou desajeitado, foi mais forte que o medo.
 
Ao abrir o cadastro, viu que havia centenas de perguntas: sobre gostos, sonhos, hábitos, medos, o que esperava de um relacionamento, como reagia a conflitos, até detalhes pequenos como se preferia café ou chá, silêncio ou conversa animada. E havia também perguntas sobre a vida amorosa e sexual.
 
Lembrou-se de tudo o que já tinha ouvido amigos, vizinhos e colegas contarem: como eles inventavam histórias, aumentavam fatos, escondiam defeitos ou exageravam qualidades para parecerem mais interessantes, mais experientes, mais “desejáveis”. “Quem quer que vá gostar de mim tem que gostar de mim assim, de verdade”, pensou. E decidiu ser diferente de todos eles: respondeu cada pergunta com uma sinceridade absoluta, sem omitir nada, sem mudar nada.
 
Escreveu que nunca havia beijado ninguém, que nunca havia tido nenhum tipo de contato íntimo, que tinha medo de errar, que era devagar para se abrir, que gostava de rotinas simples, que não sabia fazer elogios bonitos nem gestos grandiosos, que preferia ficar em casa a ir a festas, que se sentia mais à vontade com livros do que com multidões. Disse que queria alguém que não esperasse dele o que ele não podia dar, que aceitasse seu jeito quieto, sua timidez, seu ritmo próprio.
 
Terminou o cadastro com o coração disparado, enviou e esperou. Passaram-se horas, depois dias. Quando abriu o site novamente, a mensagem na tela foi curta, clara e definitiva:
 
“Com base nas respostas fornecidas e na análise de todos os perfis cadastrados em nosso banco de dados mundial, não foi encontrada nenhuma mulher com compatibilidade suficiente para formar um relacionamento saudável e duradouro com você. Seus valores, suas características e suas expectativas são únicos demais para corresponder a qualquer perfil existente em nossa plataforma.”
 
Carlos leu e releu aquilo até as letras parecerem se misturar. Primeiro veio a tristeza, depois a vergonha, depois uma espécie de raiva calma — não do site, nem das mulheres, mas do mundo que sempre pareceu feito para pessoas que sabiam se virar, que sabiam mentir um pouco, que sabiam se adaptar. Ele pensou nos amigos que tinham mentido em cadastros assim, que tinham mentido em encontros, que tinham mentido até nos próprios casamentos, só para ter alguém ao lado, mesmo que não fosse quem realmente queriam. E todos eles tinham tido relacionamentos, namoros, casamentos — mesmo que muitos terminassem em desentendimentos, traições ou solidão a dois. Ele, que tinha sido inteiramente verdadeiro, não tinha encontrado ninguém.
 
Foi então que a ironia bateu forte, como um soco e um riso ao mesmo tempo.
 
“Se não existe ninguém no mundo que seja compatível comigo… então quem mais me entenderia senão eu mesmo? Quem mais iria aceitar tudo o que sou, tudo o que gosto, tudo o que não sei fazer, senão eu próprio?”
 
A ideia começou como uma brincadeira na cabeça, mas foi crescendo, ganhando forma, ganhando seriedade. Pesquisou e descobriu que, em vários lugares do mundo, havia pessoas que celebravam o amor-próprio de forma simbólica, fazendo cerimônias para se comprometer consigo mesmas: promessas de cuidado, de respeito, de não se abandonar nunca mais.
 
Preparou tudo com calma, como fazia com todas as coisas da vida. Escolheu uma roupa simples, um terno azul-marinho que tinha guardado há anos e nunca usara. Decorou a sala do apartamento com as suas plantas favoritas, com os livros que mais amava, com velas que iluminavam devagar. Convidou apenas duas pessoas: uma prima distante que sempre fora gentil com ele, e um velho amigo da escola que nunca o julgou por ser diferente.
 
Na cerimônia, não houve padre nem juiz — ele mesmo falou. Disse em voz alta, para si mesmo e para quem ouvia:
 
— Eu, Carlos, aceito a mim mesmo com todas as minhas qualidades e todos os meus defeitos. Aceito minha timidez, meu jeito devagar, minha falta de jeito com as palavras. Aceito que nunca tive ninguém ao lado, e que talvez nunca tenha, mas que isso não me torna menos digno de amor. Prometo cuidar de mim, prometo me ouvir, prometo não me comparar com ninguém, prometo ser sempre verdadeiro, como fui naquele site, mesmo que o mundo não saiba lidar com a verdade. Prometo ser o meu próprio companheiro, o meu próprio abrigo, a minha própria alma gêmea.
 
Colocou um anel no próprio dedo, um anel simples de prata, que comprara numa loja de artigos usados. Brindou com um copo de vinho tinto, do que ele mais gostava.
 
Depois daquele dia, a vida de Carlos não mudou muito por fora: continuou trabalhando na mesma livraria, continuou cuidando das plantas, continuou lendo até tarde da noite. Mas por dentro, tudo era diferente. Ele não esperava mais ninguém chegar. Não se sentia mais incompleto. Quando ouvia amigos contarem sobre os problemas dos seus casamentos, sobre as mentiras que ainda contavam, sobre a solidão que sentiam mesmo acompanhados, ele sorria para si mesmo, em silêncio.
 
E pensava: Eles mentiram para ter um relacionamento, e acabaram sozinhos ao lado de outra pessoa. Eu falei a verdade, não encontrei ninguém lá fora, mas me encontrei comigo mesmo. E, no fim das contas, casei com a única pessoa que nunca iria me abandonar, nunca iria me julgar, nunca iria mentir para mim.
 
Carlos, 50 anos, virgem, sem jeito com as mulheres — mas finalmente casado, feliz e em paz, consigo mesmo.

Fim

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