O Fracassado que falhou em fracassar


Juliano Hinacio Cantão nunca teve um dom. Na escola, tirava cinco em todas as matérias — nem o gostinho de zerar uma prova para virar lenda entre os fundões ele conseguia. No futebol do fim de semana, jogava tão mal que não servia nem para ir pro gol, mas também não cometia nenhuma lambança épica para virar meme. Juliano era a personificação da nota seis: absolutamente morno.

​Até que, numa terça-feira chuvosa, olhando para a tela do celular, ele teve a grande ideia da sua vida.

​— Se eu não consigo ser o melhor em nada, serei o maior fracassado que este país já viu! — declarou para o espelho do banheiro, tentando fazer uma pose dramática, mas acabou tropeçando no tapetinho de crochê.

​O plano era simples: abrir uma conta nas redes sociais e documentar sua total falta de talento. Ele seria o mestre do desastre, o rei da ruína, o ícone da derrota.

​A estreia foi o "Tutorial de Como Fazer Café". Juliano posicionou a câmera, ligou o gravador e começou a atuar. E aí residia o seu grande problema: Juliano não sabia agir naturalmente. Ele era um canastrão incorrigível.

​Em vez de parecer um cara estabanado e autêntico, ele gesticulava como um ator de novela mexicana dos anos 90. Olhava fixamente para a câmera, dava pausas dramáticas e forçava uma voz aveludada de galã decadente. Quando derrubou o pó de café na bancada, não pareceu um acidente, mas sim um movimento teatral perfeitamente calculado, acompanhado por um jogada de cabelo vergonhosa e um "Oh, não, o destino me traiu novamente!".

​O vídeo subiu. Juliano dormiu ansioso, esperando os comentários o massacrando e apontando como ele era um inútil.

​Acordou com três milhões de visualizações.

​Os comentários não eram de pena ou deboche violento. A internet tinha surtado com o "personagem":

"Gente, o nível de ironia desse cara é genial!"

"A canastrice dele é uma crítica social ao ego dos influenciadores, mestre do deboche!"

"Nunca vi alguém atuar tão mal de propósito, ele é um gênio da comédia pós-moderna!"

​Juliano entrou em pânico. Não era ironia! Ele queria ser um fracasso de verdade!

​Desesperado para provar que era um inútil, gravou o segundo vídeo: "Tentando Cantar Blues". Pegou um violão desafinado, vestiu um terno acolchoado dois tamanhos maior, colocou óculos escuros dentro de casa e soltou a voz. Mas a canastrice falou mais alto. Ele curvava o corpo com uma intensidade tão exagerada, fazia caras e bocas tão absurdamente dramáticas que o resultado foi uma obra-prima do pastelão.

​Na semana seguinte, o vídeo virou trend no TikTok. A expressão "fazer o Hinacio" virou sinônimo de drama exagerado nas redes.

​Em três meses, o homem que queria ser o maior perdedor do Brasil assinou contratos publicitários, virou figurinha de WhatsApp e ganhou o selo de verificado. Chamavam-no de "o rei do camp", o astro que debochava da própria mediocridade com elegância e canastrice sem limites.

​Sentado na varanda do seu novo apartamento, tomando um café que agora recebia de graça de uma marca patrocinadora, o pobre Juliano Hinacio Cantão suspirou fundo. Olhou para o troféu de "Criador Revelação do Ano" sobre a mesa.

​Tentou ser um desastre completo, mas até o seu fracasso tinha sido uma atuação tão mambembe que o público comprou como genialidade. Não tinha jeito. Juliano era tão profundamente medíocre que havia falhado miseravelmente até na missão de falhar.

FIM


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