O Tesouro Que Não Tem Como Comprar De Volta

Maria morava numa casa pequena, com quintal de barro e uma goiabeira no canto. Quando era criança, toda vez que a chuva parava e o sol aparecia, ela corria para o portão.
 
Porque sempre aparecia um arco-íris.
 
E Maria acreditava, de todo o coração, no que a vovó tinha contado: no fim daquele risco colorido, tem um baú de ouro. Quem é bom, quem faz tudo certo, quem ama de verdade, chega lá um dia. Tudo sempre dá certo no final.
 
Isso era o seu tesouro. Não o ouro. Acreditar.
 
Ela era feliz assim. Quando o pão acabava e tinha que esperar o dia seguinte para comprar mais, ela pensava: “amanhã chego mais perto do baú”. Quando caía da bicicleta e ralava o joelho, limpava a lágrima e pensava: “isso passa, tudo fica bem”. Ela não sentia o peso do mundo. Porque o mundo, para ela, era bom. No final, sempre ganha quem merece.
 
Um dia, o cachorrinho dela, Totó, ficou doente.
 
Maria fez tudo certo. Deu remédio na hora certa. Dormiu no chão ao lado dele para não ficar sozinho. Rezou todas as noites, pedindo para ele ficar bom. Ela tinha certeza: ia dar certo. Eu sou boa, eu cuido dele, ele vai sarar.
 
Totó morreu na terça-feira de manhã.
 
Maria chorou muito. E, pela primeira vez, um pensamento pequeno e feio entrou na sua cabeça: “Eu fiz tudo certo. Por que deu errado?”
 
Ela empurrou o pensamento para longe. “É só um contratempo”, disse para si mesma. “Ainda vou chegar ao fim do arco-íris.”
 
Anos passaram. Maria tinha 17 anos, cabelo preto na altura do ombro, e amava um menino chamado Zé.
 
Zé falou coisas bonitas. Disse que iam casar. Disse que iam ter uma casa com quintal maior que o dela, com galinha e cachorro e uma árvore de manga. Disse que ela era a pessoa mais boa do mundo, que com ela tudo ia dar certo para sempre.
 
Maria acreditou. Guardou cada centavo que ganhou limpando casa para a vizinha. Comprou panos coloridos, um a um, para fazer o enxoval. Dobrou cada pano com cuidado, guardou numa caixa de madeira debaixo da cama. Cada pano era um pedaço do baú de ouro.
 
Um sábado, Zé não apareceu.
 
Na segunda, a vizinha veio contar: ele tinha pegado o ônibus para a cidade grande, com uma menina que trabalhava no bar. Tinha levado a mala, e não deixou recado.
 
Maria abriu a caixa de panos debaixo da cama. Olhou para cada um, colorido, limpo, cheiro de sabão. E o coração dela partiu, bem devagar, como um pão velho que se quebra na mão.
 
Dessa vez, o pensamento feio ficou mais tempo: “Eu amei de verdade. Fiz tudo certo. Por que ele foi embora?”
 
Ela tentou de novo empurrar para longe. “Vai passar”, disse para o espelho. “Ainda vem alguém melhor. Tudo dá certo no final.”
 
Mais anos. Maria tinha 25. Acordava todos os dias às 4 da manhã para trabalhar na padaria do seu João. Há 9 anos ela fazia pão, limpava o balcão, atendia os clientes. Nunca chegou atrasada. Nunca faltou. Nunca errou o troco.
 
Seu João chamou ela um dia, no fim do expediente.
 
— Maria, você é a melhor funcionária que eu já tive. Vou abrir uma filial, e a gerente vai ser você. Mais salário. Mais horário bom. Você merece.
 
Maria quase pulou de felicidade. Finalmente. Depois de tanto trabalhar, tanto acordar cedo, tanto fazer tudo certo. O baú de ouro estava chegando.
 
Uma semana depois, seu João apresentou a nova gerente: o sobrinho dele, de 19 anos, que chegava atrasado todo dia, que não sabia nem fazer um pão direito.
 
— É família, entende? — disse seu João, sem olhar para o rosto dela.
 
Maria não gritou. Não chorou. Só pegou o avental, colocou no gancho, e saiu da padaria. Caminhou devagar para casa. O sol estava forte, e o peito dela doía como se tivesse apanhado.
 
Dessa vez, o pensamento feio não saiu mais.
 
Ela parou na calçada, olhou para as pessoas passando. Ouviu a tia Carmem dizer para uma moça que chorava: “Não fica assim, filha. Tudo acontece por um motivo. Vai dar certo”. Ouviu o rapaz do mercado dizer para o amigo: “Amanhã melhora. Tudo fica bem no final”.
 
E Maria entendeu, de repente, como se alguém tivesse acendido uma luz no escuro.
 
Ninguém acredita nessas frases.
 
Ninguém.
 
Elas falam isso porque a verdade é muito forte. A verdade dói tanto que a gente não consegue segurar. A verdade é:
 
Às vezes você faz tudo certo, e dá errado.
Às vezes você ama de verdade, e a pessoa vai embora mesmo assim.
Às vezes você trabalha a vida toda, e quem ganha é quem não fez nada.
Não tem baú de ouro no fim do arco-íris.
O mundo não é justo.
E muita coisa, na vida, nunca vai dar certo.
 
Todo mundo sabe disso. Mas todo mundo finge que não sabe. É o fingimento que todo mundo faz, para não quebrar. É como se todo mundo estivesse usando uns óculos coloridos, que fazem a vida parecer mais bonita do que é. Se tirar os óculos, a realidade vem toda de uma vez, e a alma dói tanto que a gente não aguenta.
 
Maria tirou os óculos naquele dia. Perdeu a inocência. Perdeu o tesouro.
 
Agora ela sabe a verdade. E a verdade é fria. É como dormir num colchão de pedra: você sente cada caroço, cada dor, cada coisa que está errada. Não tem mais a ilusão de que amanhã vai ser melhor. Não tem mais a certeza de que quem é bom ganha no final.
 
Mas ela também não aguenta sentir a dor todo dia, o tempo todo.
 
Então ela faz o que todo mundo faz. Começou a falar as frases também.
 
Quando alguém pergunta como ela está, ela sorri fraco e diz: “Tudo bem. Amanhã melhora”.
 
Quando vê uma moça chorando por amor na calçada, ela para, toca no ombro da menina e diz: “Vai dar certo, filha. Tudo acontece por um motivo”.
 
Ela sabe que é mentira. Sabe que amanhã provavelmente vai ser igual a hoje. Sabe que muita coisa não vai dar certo nunca. Mas ela fala mesmo.
 
Porque se parar de falar, se parar de fingir um pouco, a dor vem toda de uma vez. E ela não tem força para segurar. A mentira é um curativo. Não cura a ferida. Mas impede que ela sangre até morrer.
 
Ontem, choveu forte à tarde. Quando parou, o sol apareceu baixinho, e abriu um arco-íris enorme, colorido, igual aos da infância dela.
 
Maria estava na porta da casa, com as mãos ainda sujas de farinha do trabalho. Olhou para o arco-íris, lá no fim do campo.
 
Quando era criança, ela já teria pegado a chinela e saído correndo pelo mato, sem nem pensar. Correndo atrás do baú de ouro. Correndo atrás da certeza de que tudo ia dar certo.
 
Agora ela ficou parada.
 
Sabia que lá no fim, não tem nada. Nenhum baú. Nenhum ouro. Nenhuma recompensa para quem faz tudo certo. Apenas mais mato, mais barro, mais vida igual a esta.
 
Ela tocou o peito, onde a dor mora todo dia. A dor de saber a verdade. A saudade da menina que corria atrás de arco-íris, que acreditava em tudo, que era feliz sem saber por quê.
 
Essa menina morreu. O tesouro dela se perdeu. Não tem como comprar de volta. Não tem como achar de novo.
 
Maria olhou mais uma vez para o arco-íris. E falou baixinho, quase sem som, só para ela mesma ouvir:
 
— No fim tem ouro, sim. Amanhã vai ser melhor.
 
Ela sabe que é mentira.
 
Mas é a única coisa que segura ela de não cair no chão, de tanto que a realidade dói na alma.

Por Alex Sandro Alves 

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