Às vezes tem que perder para ganhar

Às vezes tem que perder para ganhar
Ataliba acorda hoje, 25 de julho de 2026, às 5 horas da manhã, igual há 18 anos. O sol ainda não nasceu, a casa de aluguel é pequena, o colchão tem uma marca no meio onde ele dorme, e a primeira coisa que vem na cabeça dele não é o café: é o processo.
 
Ele sabe o número de cor, como quem sabe a data do aniversário da mãe. Não vale a pena escrever os dígitos aqui: são linhas e mais linhas de números que não saem da cabeça dele, mas que nunca mudaram nada na justiça. Desde 2008, esse processo é a sombra que não sai do pé dele. Não tem cheiro, não tem rosto, mas come um pedacinho da vida dele todo dia.
 
Tudo começou de um jeito que parece história de quem não tem onde cair morto. Ataliba tinha 33 anos, estava na faculdade na qual conseguiu financiamento estudantil por outro grande banco na qual pagou em dia até quitar, fazia ao mesmo tempo da faculdade trabalhos para outros estudantes, colocava nas normas da ABNT artigos e TCC para ajudar nas despesas de sua faculdade. 

Conheceu Marcos, cara que falava bonito, usava camisa social, dizia que sabia tudo de negócios. E conheceu também o Dr. Cícero, médico da cidade, conhecido de todo mundo, consultório cheio, carro novo, nome na placa da rua.
 
Marcos chamou Ataliba para tomar um café. Disse assim, na cara dura:
 
— Olha, eu e o doutor vamos abrir uma farmácia Ltda. Precisamos de um terceiro nome no contrato para ficar tudo certo na Receita. Você não tem nada no nome, vida limpa, sem dívida, sem problema nenhum na praça. A gente põe você como sócio, paga R$ 300 por mês, você não precisa fazer nada. Só assinar uns papéis. Nenhum risco. Ltda é blindada, dívida da empresa não pega na pessoa física.
 
Ataliba era jovem. Queria ajudar a mãe, queria pagar a faculdade. R$ 300 na época era o suficiente para comprar o material do semestre. Ele pensou: “dois caras de bem, médico conhecido, o que pode dar de errado?”
 
Assinou.
 
Não leu as linhas miúdas. Não perguntou o que era CNPJ atrelado ao nome. Não sabia que Ltda só é blindada para quem tem dinheiro para advogado que sabe onde cutucar. Para pobre, a lei é outra caneta.
 
A farmácia abriu. Ataliba ia lá uma vez por mês pegar os R$ 300. Nunca mexeu no caixa. Nunca assinou nota fiscal. Nunca decidiu nada. Quem mandava tudo era Marcos, nos bastidores. O médico aparecia de vez em quando, dava um oi, pegava a parte do lucro.
 
Passou um ano. Dois anos. Um dia Ataliba recebeu uma intimação em casa. O envelope era grosso, tinha o logotipo de um dos maiores bancos do Brasil, aquele que tem agência em todo canto de cidade pequena.
 
A empresa tinha pegado um empréstimo de R$ 1,2 milhão. E não tinha pago nem uma parcela.
 
Marcos tinha feito tudo sozinho. Assinou a papelada do banco. Pegou o dinheiro. Transferiu para contas de outras empresas que ninguém nunca ouviu falar. Depois mandou a farmácia falir. Fechou a porta. Sumiu da cidade.
 
Quando Ataliba chegou no fórum, o mundo deu uma volta. O médico Dr. Cícero tinha três advogados bons, caros, de terno azul. Eles mostraram na justiça que a assinatura dele no contrato do empréstimo era falsa. Provou que ele nunca sabia de nada. Que era vítima também.
 
A justiça deu razão ao médico. Tiraram o nome dele do processo. Ele continuou atendendo na clínica, continuou comprando carro novo, continuou sendo o Dr. Cícero que todo mundo respeita na cidade.
 
Marcos sumiu. Nunca mais apareceu. Ninguém procura ele até hoje.
 
Sobrou Ataliba.
 
O juiz disse: — Você era sócio registrado. Assinou o contrato social. Responde por tudo.
 
E ali, naquele momento, o nome de Ataliba grudou no CNPJ da empresa falida como uma etiqueta de preço que não sai com água nem com esponja de aço. O banco não quer saber de Marcos. Não quer saber do médico. Quer o dinheiro. E eles têm 12 advogados trabalhando só nesse caso, como se Ataliba fosse um grande bandido que roubou um banco.
 
Esse é o Brasil dos espertos. E não é só aqui: o mundo todo funciona assim, em pedaços. Mas por aqui a regra é mais dura, mais escancarada: muitos são punidos e enganados desde o dia que nascem, só para que poucos vivam na riqueza, sem sujar as próprias mãos, sem pagar pelos erros que mandam os outros cometer.
 
É assim que funciona no Brasil, desde que o primeiro banco abriu por aqui. Tem milhares de Atalibas espalhados por esse país. Gente que cedeu o nome por R$ 200, por um emprego prometido, por favor de parente, por amizade. Gente que não sabia que “laranja” não é fruta nesse negócio: é o bode expiatório que fica com a dívida quando a festa acaba.
 
Hoje Ataliba tem 51 anos. Terminou a faculdade, mas não pode exercer a profissão que queria porque não consegue registro no conselho — nome sujo,cadastro positivo no Fórum, não pode nem fazer e assumir um concurso público. Não pode ter carro no nome. Não pode ter casa. Não pode ter nem que seja simbólicos R$ 500 na poupança que o banco penhora na mesma hora. Ele recebe o salário em dinheiro vivo, do patrão que sabe da história, e divide para pagar aluguel, luz, água, remédio da mãe.
 
Todo dia ele olha para o teto antes de dormir e pensa: “eu não peguei um centavo desse dinheiro. Eu não assinei nada do empréstimo. Por que eu?” o universo me pune porque?
 
Os advogados do banco têm um truque que Ataliba já sabe de cor. Todo processo no Brasil, se ficar 5 anos sem andar porque o devedor não tem nada no nome, prescreve. Acaba. O banco não pode mais cobrar. Então, sempre que o processo está chegando perto dos 5 anos, os 12 advogados entram com um papel qualquer novo — uma prova, um documento, um pedido de perícia — para “pôr pra rodar de novo”. O relógio zera. Começa tudo outra vez.
 
Já aconteceu três vezes. 2013. 2018. 2023. Agora em 2026 o processo está lá de novo, andando devagar, como um carro de boi na estrada de terra, com destino certo: a vida de Ataliba.
 
Parece pessoal. Parece que o banco não quer mais o dinheiro — quer quebrar ele de vez.
 
É a matemática do país dos espertos: 12 advogados gastam 18 anos para apertar um homem que não tem nada, enquanto quem realmente pegou o dinheiro segue a vida, rico, tranquilo, sem que ninguém bata na sua porta.
 
Por uns anos, Ataliba chegou a acreditar que ia ganhar do sistema. Ele aprendeu a regra dos 5 anos e pensou com os seus botões: “eu não tenho nada no nome, eles não tem o que penhorar, chega uma hora esse processo morre sozinho”. Quando passou o primeiro ciclo e o banco pôs tudo para rodar de novo, ele ficou quebrado por uns meses, mas depois tornou a sonhar baixo.
 
Aos 50 e poucos anos, ele conseguiu um jeito: começou a pagar parcelas de um terreno pequeno, na periferia da cidade. Não era grande, não tinha nada construído, mas era o primeiro pedaço de chão que ia ser seu na vida. Ele pagou mês a mês, com o dinheiro da serralheria, contado, suado. Deixou de comprar roupa nova, deixou de tomar um churrasco com os amigos, deixou de fazer muita coisa para não atrasar nenhuma parcela. Sonhava em construir uma casinha de dois quartos para ele e a mãe, longe do aluguel que subia todo ano.
 
Até que um dia, quase terminando de pagar, ele foi tirar uma certidão no fórum e um funcionário que conhecia a história dele puxou ele no canto, baixou a voz:
 
— Cuidado, Ataliba. O pessoal do banco está vasculhando tudo o que é registro de imóvel da região. Eles sabem que você tem esse terreno aqui. Se chegar ao seu nome, eles raptam na mesma hora para abater uma parte da dívida. Não vão deixar você ter nada, nunca.
 
Foi como um balde de água fria. Ataliba ficou três noites sem dormir. Abriu a caixa de sapato onde guardava todos os carnês, cada um carimbado, cada um pago em dia. Eram anos de trabalho, de sacrifício, de um sonho pequeno que ele não tinha contado para quase ninguém.
 
Ele teve que tomar a decisão mais dura da vida toda. Chamou uma sobrinha, a única pessoa da família que ele confiava de olhos fechados, e passou o terreno para o nome dela. Perdeu tudo o que já tinha pago. Perdeu o direito de dizer que era dono de alguma coisa. Perdeu o sonho da casinha. Tudo de propósito.
 
Ele preferiu entregar o terreno para alguém de confiança, perder cada centavo que já tinha investido, do que deixar o banco botar a mão naquilo. Não queria dar o gostinho de ganharem nem um pedacinho de terra que ele tinha construído com suor. Na sua cabeça, era uma troca: eu perco o terreno hoje, para que amanhã, quando o processo finalmente morrer, eu não tenha ficado no prejuízo total para sempre. Ele preferiu perder tudo de vez, na esperança cega de que um dia aquele monte de papéis e números sumisse da sua vida para sempre.
 
Mais uma vez, Ataliba tinha perdido. Mas, pela primeira vez na história toda, ele tinha perdido por escolha própria.
 
Ele foi ao psicólogo. Tem depressão diagnosticada há 10 anos. Insônia. Ansiedade que aperta o peito como uma mão grande. Tem noites que ele pega a corda do varal e olha para o madeirite do telhado. Tem dias que ele planeja como acabar com tudo, porque é mais fácil do que acordar todo dia e lutar contra 12 advogados, um sistema, um banco que não cansa.
 
Ataliba já perdeu quase tudo. Perdeu a carreira que sonhou. Perdeu a noiva que não quis casar com homem “com nome sujo”. Perdeu 18 anos da vida adulta olhando para trás, com medo do correio chegar com nova intimação. Perdeu o terreno que ia ser a sua casinha. Perdeu a capacidade de acreditar em gente que fala bonito. Perdeu a fé na justiça que aprendeu na escola.
 
Quem vê ele na rua, com a camisa surrada, sapatos velhos, olheiras fundas, pensa: “pobre coitado”. Ninguém sabe que ele é o dono de uma dívida de mais de R$ 3 milhões hoje, com juros e multa crescendo todo dia, mais forte que mato em cerca de fazenda. Ninguém sabe que ele é Ataliba contra 12 advogados, contra um banco, contra um país onde a lei pesa mais no pescoço de quem não tem terno.
 
Mas aqui que a história vira, e o sentido da frase aparece: às vezes tem que perder para ganhar.
 
Ataliba perdeu dinheiro. Perdeu bens. Perdeu futuro que planejou. Perdeu até o pedaço de terra que ele pagou com o suor de anos. Mas nesses 18 anos ele ganhou coisas que dinheiro nenhum compra, e que o médico rico, e Marcos, e os 12 advogados do banco nunca vão ter.
 
Ele ganhou o dom de não acreditar em papéis bonitos. Ele ganhou olho para ver gente falsa antes que ela chegue perto. Ele ganhou a capacidade de dormir sabendo que nunca roubou ninguém, nunca mentiu para ganhar vantagem, nunca deixou outro pagar pelo seu erro. Ele ganhou a coragem de soltar o terreno de propósito, só para não dar aos espertos o prazer de ver ele perder para eles.
 
Hoje Ataliba trabalha de ajudante geral em uma serralheria. Ganha pouco. Mora de aluguel. Não tem nada no nome. Mas todo dia ele ajuda a mãe. Todo dia ele paga o pão e o leite com dinheiro suado, limpo. Todo dia ele acorda, respira, e não tem que olhar para o espelho e ver um homem que usou outro para ficar rico.
 
Os 12 advogados do banco podem penhorar tudo o que ele não tem. Podem fazer o processo rodar mais 18 anos. Podem deixar ele com nome sujo até o dia que ele morrer. Mas eles nunca vão conseguir pegar o que ele ganhou quando perdeu tudo:
 
A certeza de que ele é melhor do que todos eles juntos.
 
O médico tem consultório cheio, mas tem que dormir com a consciência de que deixou um menino novo pagar o pato por ele. Marcos tem o dinheiro que roubou, mas tem que viver escondido, mudando de cidade todo ano, com medo de bater a porta. Os 12 advogados ganham bem, mas sabem que passam a vida destruindo gente inocente para receber o salário do banco.
 
Todos esses são os espertos que o país premia. Eles ganharam o dinheiro, os bens, o nome na rua. Mas perderam a única coisa que não tem preço: a paz de consciência.
 
Ataliba não tem nada. Mas ele tem a alma limpa.
 
Isso é o que ninguém explica quando você é jovem e assina um papel por R$ 300. Que às vezes a vida te obriga a perder todas as coisas materiais, todo o futuro que você desenhou, todo o dinheiro que você poderia ter, até o último sonho pequeno que você guarda no peito — só para você ganhar a coisa mais rara que existe nesse mundo de espertos:
 
Saber quem você é de verdade, sem máscara, sem dinheiro, sem nome na placa da rua. E saber que, mesmo perdendo tudo, você nunca deixou os outros ganharem de você o que realmente importa.
 
Hoje, quando Ataliba toma o café preto antes de ir para o serviço, ele ainda pensa no processo. Ainda tem dias que a vontade de acabar com tudo bate forte. Mas ele segura. Porque ele sabe: o banco pode ganhar todos os recursos na justiça. Podem ficar com o nome dele por mais 20 anos. Podem ter feito ele perder o terreno. Mas eles nunca vão ganhar a parte dele que realmente importa.
 
Às vezes tem que perder tudo o que os outros acham que vale a pena, para ganhar a única coisa que realmente não tem preço:
 
A paz de dormir de noite sem ter roubado a vida de ninguém. E a esperança de que, um dia, depois de tanto perder de propósito, você finalmente ganhe a sua liberdade de volta.
 
E no final das contas, Ataliba é o único dessa história toda que não está preso a nada. O médico está preso ao nome dele, à mentira, ao medo que um dia alguém descubra a verdade. Marcos está preso ao dinheiro sujo, ao medo de ser encontrado. Os advogados estão presos ao sistema, ao dinheiro do banco, a defender o indefensável.
 
Só Ataliba é livre. Livre de culpa. Livre de mentira. Livre de ser alguém que ele não é.
 
Ele perdeu tudo o que tinha. Inclusive o que ele mesmo construiu com as próprias mãos. Mas ganhou a si mesmo.
 
E no final, essa é a única vitória que realmente dura.

O Autor

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