Há histórias que a polícia tenta abafar, que os jornais tratam como boato, mas que o tempo se encarrega de eternizar. No interior do Paraná, entre as névoas frias que descem sobre os cafezais e a terra vermelha, todo mundo já ouviu falar da Lenda do Anjo da Morte de Aluguel.
Seu nome verdadeiro? Ninguém sabe. Na vida real e no mundo virtual, ele era a definição do número zero. Não tinha perfil em rede social, não aparecia em fotos de família, e se você cruzasse com ele na rua, esqueceria o seu rosto dois segundos depois. Um sujeito completamente subestimado pela sociedade, transparente, daqueles que o mundo empurra para o lado sem pedir licença.
Ele se treinou para ser um matador. Comprou armas em silêncio, estudou venenos sem deixar rastros e aprendeu a andar sem fazer barulho. Ele queria ser um exterminador de aluguel, daqueles que cobram caro para sumir com empresários corruptos ou rivais perigosos.
Mas a vida tem uma ironia perversa.
Seu primeiro "trabalho" deveria ter sido o assassinato de um grande fazendeiro da região. Só que, ao invés do fazendeiro, quem o procurou — de um jeito meio torto, farejando o perigo nele — foi a esposa do homem. Ela não queria a morte do marido. Estava num estágio terminal de um câncer devastador, sentia dores insuportáveis e a medicina já tinha lavado as mãos. Ela não queria mais continuar, mas não tinha coragem nem forças para dar o fim com as próprias mãos.
Ela implorou. Ofereceu tudo o que tinha na carteira e pediu misericórdia. Naquela noite, com as mãos trêmulas, ele não agiu como um monstro frio, mas como um alívio silencioso. Uma dose precisa, sem dor, um adeus calmo no escuro.
A partir dali, a fama dele se espalhou não no submundo do crime, mas nas sombras do sofrimento humano. Pessoas doentes, idosos esquecidos em dores agoniantes, mentes cansadas de existir que já não encontravam razão para ver o sol nascer no dia seguinte... todos começaram a ir atrás dele. O matador de aluguel virou, contra todas as suas expectativas originais, um Anjo da Morte.
Ele não aceitava qualquer trabalho. Se sentisse cheiro de ganância, vingança ou crime fútil, ele sumia. Ele só atendia quem realmente já tinha morrido por dentro.
Como não havia internet ou celulares envolvidos no processo, o meio de contato virou parte do folclore do estado. No meio do nada, numa encruzilhada de terra batida no interior paranaense, fincada ao lado de uma araucária centenária, havia uma caixa de correios de madeira escura. Na porta dela, entalhado à mão, ficava o clássico símbolo do anjo da morte: uma figura alada segurando uma foice, mas com a cabeça baixa, como se pedisse desculpas.
Quem queria partir deixava ali uma carta simples. Explicava a dor, a dor inegociável, e deixava o endereço e a quantia que podia pagar. Se na noite seguinte a carta sumisse, o contrato estava aceito. Em poucos dias, a pessoa apenas "dormia" em sua cama e não acordava mais. Sem marcas de violência, sem rastros.
Houve o caso de um velho alfaiate de Curitiba, cuja família inteira tinha partido num acidente, e que passou cinco anos olhando para o teto até mandar a carta. Houve a jovem do interior que sofria de uma condição rara que queimava sua pele por dentro. Para todos eles, a chegada daquele homem invisível à meia-noite não era um pesadelo, era a única visita esperada.
A polícia paranaense passou décadas tentando caçá-lo. Investigadores montaram campana na encruzilhada, usaram produtos químicos na caixa de correio, infiltraram agentes. Nada funcionava. O Anjo parecia adivinhar a presença da lei e simplesmente evaporava no ar. A fresta entre a vida e a morte parecia ser seu habitat natural.
Mais de cem anos se passaram desde que a primeira carta foi deixada naquela caixa de madeira. Aquele homem original, em carne e osso, com certeza já virou poeira na terra vermelha.
Mas a lenda... a lenda nunca morreu.
Ainda hoje, quem viaja pelas estradas rurais do Paraná jura que, em noites de neblina densa, se você prestar atenção em certas encruzilhadas esquecidas pelo mapa, ainda dá para ver a sombra de uma caixa de correios gasta pelo tempo. E dizem as línguas mais antigas: se o seu cansaço da vida for real e seu pedido for sincero, quando você piscar, a sua carta já terá desaparecido.
Fim
Por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo
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