Dona Marta estava sentada na cadeira de balanço na varanda, olhando o movimento da rua, enquanto segurava uma xícara de café morno. O fim de tarde no bairro estava calmo, mas a cabeça dela fervilhava com as conversas que tivera naquela semana. Ela, que já tinha vivido mais de sessenta anos, pensava em como a vida gosta de pregar peças na gente.
— Sabe, fia... — disse Marta para a neta, que mexia no celular ao seu lado. — Às vezes a gente gasta um tempão correndo atrás da verdade, mas quando ela chega, queima igual pimenta.
A neta tirou os olhos da tela, curiosa. Marta continuou:
— Lembra do Seu Tião da padaria? Semana passada, o médico foi bem claro com ele: "Se o senhor não cortar a cervejinha e o torresmo agora, o coração não vai aguentar". Aquilo foi a verdade nua e crua. O homem voltou para casa arrasado, chorou no ombro da esposa como se fosse um menino. A verdade fez chorar, porque doeu ver que o corpo já não é o mesmo e que o tempo passa.
A neta assentiu, guardando o aparelho. Marta deu um gole no café e olhou para a casa da vizinha da frente.
— Por outro lado, olha a Dona fátima ali na janela. O neto dela mudou lá para São Paulo faz um ano. Ele quase não liga, mal quer saber da avó. Mas ontem, quando ela ligou chorando de saudade, o rapaz disse: "Vó, estou trabalhando dobrado para juntar um dinheiro e te visitar no Natal".
Marta suspirou, com um sorriso meio triste.
— Todo mundo no bairro sabe que o rapaz gastou o salário do mês num festival de música e não tá nem aí. Foi uma mentira deslavada. Mas você precisava ver o brilho nos olhos da Fátima hoje cedo. Ela foi na feira sorrindo à toa, comprou até o polvilho para fazer o biscoito que o neto gosta. A mentira fez ela sorrir, deu um quentinho no coração dela, mesmo que por pouco tempo.
A jovem ficou em silêncio por um momento, pensando nos dois vizinhos.
— Mas vó... o que é melhor então? A verdade que machuca ou a mentira que alegra?
Dona Marta olhou para o fundo da xícara vazia e respondeu com a sabedoria de quem conhece o peso dos dias:
"A mentira é como um guarda-chuva furado num dia de tempestade, fia. Na hora que você abre, ele te dá a ilusão de que você tá protegido e você até sorri aliviado. Mas a verdade é a chuva que vem logo depois. Ela te molha, te dá frio e te faz chorar, mas é a única que limpa o chão e faz a terra firme aparecer de novo para você poder andar."
por Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo
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