Baseado em mentiras reais

Baseado em mentiras reais

Um conto de Alex Sandro Alves para o Blog O Escritor Dislexo

​Dizem que a história é escrita pelos vencedores. Eu, com a minha velha mania de trocar as ordens das letras e enxergar o mundo por ângulos tortos, prefiro dizer que a história é escrita por grandes ficcionistas. No Brasil, então, o realismo fantástico perde de goleada para a nossa própria linha do tempo.

​Sempre me disseram que a mentira tem perna curta. Bobagem. Por aqui, a mentira tem pernas longas, corre maratonas e, às vezes, vira estátua em praça pública. Pegue o seu café, respire fundo e acompanhe comigo essa cronologia de "verdades alternativas" que moldaram o nosso país.


​1500: O "Acaso" Atlântico

​Pedro Álvares Cabral estava velejando em direção às Índias, o vento soprou um pouco mais forte para o lado errado, e — ops! — tropeçou em um continente gigante de proporções continentais. Uma tremenda coincidência, não?

​A verdade é que as caravelas portuguesas não tinham nada de perdidas. O Tratado de Tordesilhas já tinha sido assinado em 1494 porque a coroa portuguesa sabia perfeitamente que havia terra por aqui. O "descobrimento por acaso" foi a primeira grande fake news institucional do Brasil. Uma mentira oficializada para não levantar suspeitas com os vizinhos espanhóis.

​1822: O Grito Heroico e o Alazão Imponente

​Feche os olhos e imagine o 7 de setembro. Dom Pedro I, montado em um imponente cavalo branco, erguendo sua espada reluzente contra o sol, bradando "Independência ou Morte!" às margens plácidas do Rio Ipiranga. Lindo, digno de um filme de Hollywood.

​Agora, abra os olhos para a realidade crua. Dom Pedro estava, na verdade, montado em uma burra de carga (o animal mais sensato para subir a Serra do Mar). Suas vestes eram simples e, para completar o charme do momento histórico, o príncipe regente sofria de um severo e devastador ataque de diarreia devido à comida da viagem. O "Grito" foi mais um desabafo de cólica do que um brado retumbante. Mas, claro, o quadro de Pedro Américo vendeu a mentira mais bonita.

​1889: O Povo Clama pela República

​A Proclamação da República é pintada nos livros como um levante popular, o ápice do desejo de um povo cansado da monarquia.

​Na manhã de 15 de novembro, o Marechal Deodoro da Fonseca — que, inclusive, era amigo do Imperador Dom Pedro II — estava doente, de cama, e o que o moveu a sair de casa foi um boato falso de que o governo imperial havia prendido um de seus desafetos políticos. O povo assistiu a tudo na Praça da Aclamação sem entender absolutamente nada. Como escreveu o jornalista Aristides Lobo, a população assistiu à queda do Império "bestializada", achando que era apenas um desfile militar. Uma República proclamada por um mal-entendido.

​1937: O Plano Cohen e a Ameaça Fantasma

​Se você acha que as fakenews de WhatsApp são uma invenção moderna, precisa conhecer o Capitão Olímpio Mourão Filho. Em 1937, ele redigiu um documento detalhando um suposto plano comunista para queimar igrejas, saquear lojas e assassinar líderes políticos no Brasil. O documento ficou conhecido como Plano Cohen.

​Getúlio Vargas usou esse documento falso na rádio para espalhar o pânico na nação. O resultado? O Congresso acreditou, o estado de sítio foi decretado e Vargas deu o golpe que instaurou a ditadura do Estado Novo. Anos depois, descobriu-se que o plano era apenas uma simulação tática fictícia escrita pelo capitão para os seus estudos internos, que acabou "vazando" convenientemente. Uma mentira que custou a democracia.

​1985: A Doença de Tancredo

​O Brasil chorava de emoção. Após duas décadas de ditadura militar, o país finalmente elegia um presidente civil: Tancredo Neves. Mas, na véspera da posse, ele foi internado às pressas.

​O que se seguiu foi uma das maiores novelas de bastidores da nossa história. Enquanto os boletins médicos oficiais diziam que o presidente eleito tinha uma "diverticulite benigna" e estava se recuperando bem — chegando a divulgar uma foto bizarra dele maquiado, na cadeira do hospital, cercado por médicos sorridentes —, Tancredo já estava em estado gravíssimo com uma infecção generalizada causada por um tumor (que depois se confirmou ser um leiomioma). A mentira foi sustentada para garantir a transição democrática e evitar que os militares retomassem o poder. Tancredo faleceu sem nunca vestir a faixa.

Nota do Escritor Dislexo:

Olhando para trás, percebo que a história do Brasil não é uma linha reta; ela é cheia de curvas, rasuras e palavras trocadas. Como alguém que luta diariamente para colocar as letras no lugar certo, tenho uma certa simpatia pelo caos. A diferença é que a minha dislexia troca letras por acidente; a nossa história troca a verdade por conveniência.


​No fim das contas, viver no Brasil é ter a certeza de que o passado é tão imprevisível quanto o futuro. E que qualquer semelhança com a ficção... não é mera coincidência.

FIM

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