A luz fluorescente do escritório sempre teve um som. Um zumbido elétrico, constante e seco, que parecia harmonizar com a rigidez da minha coluna na cadeira ergonômica. Durante trinta anos, esse foi o meu hino nacional.
Olho para o relógio na parede — um modelo suíço, preciso até o milésimo de segundo, porque eu não tolerava atrasos. Nem dos outros, nem do destino. Minha mesa era um altar à ordem: canetas alinhadas por cor, relatórios sem uma única vírgula fora de lugar, e uma agenda que mapeava minha vida com a crueldade de um carcereiro. Eu me orgulhava disso. Chamava meu perfeccionismo de "excelência" e minha frieza de "foco".
Mas hoje, o silêncio do prédio vazio pesa mais do que os arquivos que acumulei.
— Eu devia estar vivendo — murmuro para as sombras, e minha voz soa estranha, como um instrumento que esqueceu como se toca uma melodia.
Lembro-me de quando minha filha completou sete anos. Ela queria que eu fosse ao parque para vê-la aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. Eu disse que não podia. Havia um contrato, uma cláusula ambígua que exigia minha atenção absoluta. Eu poli aquele contrato até que ele brilhasse como ouro. Hoje, não lembro o que estava escrito naquela página, mas lembro perfeitamente do brilho que se apagou nos olhos dela.
O tempo não é ouro. Ouro é um metal morto que se guarda em cofres. O tempo é sangue. É o que corre por nós e não volta para o coração uma segunda vez.
Eu tratei a vida como uma planilha de Excel. Preenchi cada célula com metas, bônus e produtividade. Mas esqueci que a vida acontece nas margens, nos espaços em branco que eu tentei, com tanto afinco, eliminar. Deixei de sentir o gosto do café porque o bebia enquanto revisava e-mails. Deixei de ver as estações mudarem porque a temperatura no meu escritório era sempre um constante e controlado 21°C.
Engraçado... eu achava que estava "construindo" um futuro. Mas para quem constrói uma casa um homem que esquece de plantar o jardim e, no fim, descobre que não tem mais fôlego para subir as escadas?
Minhas mãos, agora levemente trêmulas, tocam o tampo da mesa. Elas são mãos que nunca se sujaram de terra, que nunca seguraram uma concha de mar, que raramente se entrelaçaram com outras mãos por puro afeto, sem uma agenda por trás. Eu economizei cada minuto para um "depois" que nunca chegou. Guardei minha alegria em uma conta poupança que sofreu a inflação do arrependimento.
— Que desperdício — suspiro.
O maior patrimônio de um ser vivo não é o que ele deixa no testamento, mas o que ele gasta enquanto respira. Eu fui um bilionário de horas que escolheu a mendicância da rotina. Tive o luxo do sol de terça-feira e preferi a luz fria do LED. Tive o milagre do agora e o troquei pela promessa estéril do amanhã.
O zumbido da lâmpada continua. Mas eu, pela primeira vez, vou me levantar antes de terminar o relatório. Não porque o trabalho acabou, mas porque eu finalmente entendi que ele nunca acaba. Quem acaba sou eu.
Saio pela porta pesada de vidro, deixando para trás o homem perfeito que nunca viveu. Lá fora, o vento da noite é caótico, imprevisível e gratuito. Ele não segue protocolos. E, pela primeira vez em décadas, fecho os olhos e apenas respiro, sentindo o tempo que me resta queimar como uma vela curta, mas finalmente, acesa.
Fim
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